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Archive for julho \17\UTC 2009

Reclamar a não seleção do próprio filme por parte de um festival é melancólico e, de qualquer forma, ineficiente. Lamentar não resolve nada. É por isso que decidi escrever este texto a fim de esboçar um ENTENDIMENTO sobre o por quê do meu 1o curta, “Danças”, ter sido recusado pelo Festival Int. de Curtas de SP, mas, sabendo que essa tentativa de compreenssão está fadada de antemão ao fracasso, escrever as linhas abaixo não deixa de ser antes de tudo uma terapia individual.

1) Ter o filme recusado em Brasília, ok, dá para entender perfeitamente. No Ceará, ok também. Em Paulínia então, a gente já inscreve tendo consciência de que lá o cinema é visto sob uma outra ótica.

Agora, ter o filme excluído de uma seleção que tradicionalmente evita o recorte estilístico e abrange a diversidade (regional, temática e, principalmente, formal), o que por sua vez só é possível mediante o alto número de selecionados (neste ano há 53 curtas no Panorama Brasil somados a outros 28 no Panorama Paulista), é um atentado.

2) “Danças” não se enquadra? Não se enquadra no quê, afinal? Ademais, se enquadrar é uma questão? Acho que não.

Numeremos então alguns motivos que certamente não ajudaram o filme na seleção (sem que isso tenha a pretensão de justificar a exclusão):

– O filme NÃO se dirige ao espectador (ele é um convite para que o espectador se dirija a ele).
– O filme NÃO tem uma história.
– O filme NÃO tem um discurso social.
– O filme NÃO tem piadas para ganhar “prêmios do público”.
– O filme NÃO tem dramas humanos individuais pequeno-burgueses.
– O filme NÃO é baseado em um conto do Machado de Assis.
– O filme NÃO é uma biografia de Leonel Brizola.
– O filme NÃO fala de quando o Michael Jackson esteve no Brasil.
– O filme NÃO homenageia o Chico Buarque.
– Enfim, o filme NÃO tem a tal da “relevância” (termo de Francis Wogner).

– O filme NÃO fala a “língua da tribo” (expressão de Reinaldo Yamada), é esquisito demais.

_ O filme NÃO é um documentário metalinguístico em 1a pessoa.
_ O filme NÃO emula Tarantino ou Antonioni.
– O filme NÃO se adequa ao gosto MÉDIO.
– O filme NÃO tem a duração MÉDIA de 15 minutos.
– O filme NÃO tem 3 minutos.
– O filme NÃO tem o Selton Mello.
– O filme NÃO tem a cartelinha “Festival de Cannes” no início.
– O diretor NÃO enviou o dvd pra seleção numa caixinha profissional.
– O diretor NÃO é ator nem músico.

Então, o que o fime é, afinal?
É definitivamente ruim e tem que ir direto pro youtube? Bom, ser ruim não seria motivo de exclusão, uma vez que já vi trabalhos muito fracos neste mesmo festival (mas não quero entrar neste território lamacento da comparação valorativa em respeito à maioria dos outros realizadores).

Quem são os curadores? Qual o critério utilizado?

Perguntas no vazio, e só resta continuar a trabalhar, com aquele prazer que independe da aceitacão ou não por parte das curadorias.

Nada de “curta portfólio”. Afirmar sem medo a Diferença. E filmar é um ofício de amor.

ps: obrigado aos parceiros deste blog por cederem este espaço coletivo para a manifestação de algo incovenientemente individual, mas este texto, neste momento, se fez necessário (ao menos para mim mesmo).

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Um Retorno a Salem's Lot, de Larry Cohen.

Um Retorno a Salem's Lot, de Larry Cohen.

Larry Cohen é a base de uma série de textos que eu pensei em produzir, não recentemente, embora ainda goste do que eu tinha em mente. O filme b era o tema, e o momento os anos oitenta no cinema americano. A idéia era tratar de figuras como William Wesley, Eric Red, William Lustig, Robert Harmon. Todos cineastas que lidaram com o gênero no cinema americano em um período ótimo nas pequenas produções. Como o B foi se tornar o A, com John McTiernan e os filmes de Schwarzenegger estourando. James Cameron por exemplo, um cara que fez a passagem direta. O primeiro Exterminador seria o que? Penso também em cineastas como Mark Lester, que trabalhou em todas as alas. Seu filme mais famoso é Comando para Matar, com menos dinheiro fez o Class of 1984, um filme digno do melhor cinema. Sozinho no Escuro, filme do começo dos 80, um grande filme, é obra de Jack Sholder, diretor de O Escondido. Não são filmes que interessam só pela conceitual do momento – O Escondido é um filmasso. Penso o que une  esses filmes além de serem filmes de orçamento modesto. E olho para Cohen: seu essencialismo. Ele é o mestre no essencial, vide Perfect Strangers – no Brasil algo tipo Inocência Fatal. Cohen é um cara de muitos grandes filmes, mas poucos assim, tão exatos.

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A passagem

A passagem

A imagem como exasperação do sentimento. Um manifesto do respeito e do tradicionalismo dos orientais – por mais burra que seja qualquer generalização – com seus mortos, em contrapartida com a difusão da morte como perda autocomiserativa que abala quem fica. Rituais esses que se marcam até no desrespeito pelos mantenedores da tradição, como se essa fosse a missão de homens sem alma, que não podem se apegar à ninguém. Homens os quais acabam vivendo unicamente para aquilo.
O filme são tradições. A mulher que ainda se sacrifica por seu homem, renegando sua profissão, moradia e anseios em contrapartida a um sonho fracassado do homem de ser um grande músico. Que leva a sair de uma metrópole e voltar às origens. A dor do sonho que não se realiza, e pior, que se chega muito perto, mas no fim deixa apenas uma dívida. Sonho que o capitalismo não deixa realizar, o importante é se sustentar, não existe apoio ao que não é produto. O talento que existe, mas que sempre ficará atrás de outro músico mais talentoso. Talento que vira um peso.
A dor daqueles que se fecham em si próprios, expondo ao mundo uma casca dura e ressentida. A distância marcada desde o dia que o seu próprio pai desapareceu, talvez não suportando o seu próprio invólucro. Dor essa que se arrastará até o momento que o próprio filho prepara o corpo do seu pai para o funeral. Dor simbolizada em uma pedra, que é o ápice da frigidez e do não-sentimentalismo, mas que naquele momento transmite o amor que não é daquele mundo, que nunca vai ser visto naquele mundo, e sim que se inicia com a jornada da pós-vida.
Além disso, o encontro. Um homem que se encontra na mais bisonha das profissões, mas que é firme na sua assepsia emocional e ali se apega. Distancia-se do resto, mas que a ciclicidade traz de volta, como no caso da mulher amada.
E o apoio no humor, na troça. No vídeo institucional, que tendo o protagonista como cadáver voluntário, sugere um tampão anal para evitar vazamentos. A sensação é a mesma que se passa em um velório, quando as pessoas tentam contar piadas e amenizar a sensação da perda. O momento da dor, e as pessoas tentando tornar superficiais os segundos que valem por horas.
A Partida é uma emulsão dos sentimentos que envolvem a morte em imagens. Não apenas a morte em si, mas os momentos chaves da vida. E em imagens, isso transparece nas pieguices que permeiam o chulo, parecendo um vídeo de auto-ajuda, mas manifesta o que é e somos no fundo da alma: um emaranhado de sonhos, em sua maioria frustrados, ou apenas não-realizados. A cena do protagonista tocando violoncelo no meio do campo dá a impressão de um sonho juvenil, de uma fantasia adolescente, de algo que se pensaria antes da amargura da vida nos tomar. É babaca, é simplório, é “feliz demais”, mas é isso que a morte nos traz, a iminência ou a concretização da perda nos joga a confrontar aquilo que esperávamos que fosse acontecer, seja isso um anseio pueril. E isso está nas imagens. De maneira brega, mas está. E isso é o viver sem mágoas e rancor. Sonhar sonhos que a vida não nos permite.
No exagero, se solidifica. Porque morte é exagero, morte é dor, é destempero, mas também é um confrontar com a vida. É idiota, como qualquer ser humano. Idiota porque tendemos a enfrentá-lo com o rancor que a vida adulta nos traz. A Partida são emoções em imagens, cinema como confronto, humanidade em exagero. Defeituoso, mas não na concepção cinematográfica, e sim por tentar se assemelhar a nós, humanos. Deveras tocante.

A imagem como exasperação do sentimento. Um manifesto do respeito e do tradicionalismo dos orientais – por mais burra que seja qualquer generalização – com seus mortos, em contrapartida com a difusão da morte como perda autocomiserativa que abala quem fica. Rituais esses que se marcam até no desrespeito pelos mantenedores da tradição, como se essa fosse a missão de homens sem alma, que não podem se apegar à ninguém. Homens os quais acabam vivendo unicamente para aquilo.

O filme são tradições. A mulher que ainda se sacrifica por seu homem, renegando sua profissão, moradia e anseios em contrapartida a um sonho fracassado do homem de ser um grande músico. Que leva a sair de uma metrópole e voltar às origens. A dor do sonho que não se realiza, e pior, que se chega muito perto, mas no fim deixa apenas uma dívida. Sonho que o capitalismo não deixa realizar, o importante é se sustentar, não existe apoio ao que não é produto. O talento que existe, mas que sempre ficará atrás de outro músico mais talentoso. Talento que vira um peso.

A dor daqueles que se fecham em si próprios, expondo ao mundo uma casca dura e ressentida. A distância marcada desde o dia que o seu próprio pai desapareceu, talvez não suportando o seu próprio invólucro. Dor essa que se arrastará até o momento que o próprio filho prepara o corpo do seu pai para o funeral. Dor simbolizada em uma pedra, que é o ápice da frigidez e do não-sentimentalismo, mas que naquele momento transmite o amor que não é daquele mundo, que nunca vai ser visto naquele mundo, e sim que se inicia com a jornada da pós-vida.

Além disso, o encontro. Um homem que se encontra na mais bisonha das profissões, mas que é firme na sua assepsia emocional e ali se apega. Distancia-se do resto, mas que a ciclicidade traz de volta, como no caso da mulher amada.

E o apoio no humor, na troça. No vídeo institucional, que tendo o protagonista como cadáver voluntário, sugere um tampão anal para evitar vazamentos. A sensação é a mesma que se passa em um velório, quando as pessoas tentam contar piadas e amenizar a sensação da perda. O momento da dor, e as pessoas tentando tornar superficiais os segundos que valem por horas.

A Partida é uma emulsão dos sentimentos que envolvem a morte em imagens. Não apenas a morte em si, mas os momentos chaves da vida. E em imagens, isso transparece nas pieguices que permeiam o chulo, parecendo um vídeo de auto-ajuda, mas manifesta o que é e somos no fundo da alma: um emaranhado de sonhos, em sua maioria frustrados, ou apenas não-realizados. A cena do protagonista tocando violoncelo no meio do campo dá a impressão de um sonho juvenil, de uma fantasia adolescente, de algo que se pensaria antes da amargura da vida nos tomar. É babaca, é simplório, é “feliz demais”, mas é isso que a morte nos traz, a iminência ou a concretização da perda nos joga a confrontar aquilo que esperávamos que fosse acontecer, seja isso um anseio pueril. E isso está nas imagens. De maneira brega, mas está. E isso é o viver sem mágoas e rancor. Sonhar sonhos que a vida não nos permite.

No exagero, se solidifica. Porque morte é exagero, morte é dor, é destempero, mas também é um confrontar com a vida. É idiota, como qualquer ser humano. Idiota porque tendemos a enfrentá-lo com o rancor que a vida adulta nos traz. A Partida são emoções em imagens, cinema como confronto, humanidade em exagero. Defeituoso, mas não na concepção cinematográfica, e sim por tentar se assemelhar a nós, humanos. Deveras tocante.

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