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Archive for setembro \27\UTC 2009

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Plano 1

Plano 1

Plano 2

Plano 2

Plano 3

Plano 3

Outro dia tivemos numa reunião do grupo uma questão séria: se um plano de um filme da Germaine Dulac, L’invitation au voyage, era uma subjetiva. A questão, colocada pelo Chiko e incentivada por Francis, apontava para que apesar do movimento ser semelhante ao de uma subjetiva, acompanhando o mover dos olhos, o mais importante por trás não batia: o eixo do olhar. Foi assim que comecei a pensar em uma questão bem séria, que são esses conceitos aplicados a termos técnicos. O que seria uma subjetiva, de fato, se o personagem existe somente enquanto objeto dramatúrgico. Todo plano é subjetivo ao olhar de quem posiciona ela – todos são subjetivos a câmera. Daí a questão de que aquele primeiro plano seria tão subjetivo quanto outro me parecer irrelevante, tal qual pensar que aquele não é – toda subjetiva é uma imagem como outra. O que conceitua ela oficialmente como uma subjetiva do personagem, é uma ligação ao seu olhar – só que isso é sempre uma questão de dramaturgia, não de formalismo puro, visado pela cineasta. Como naquele filme, o da Germaine Dulac o verdadeiro eixo é só o da câmera, ela é o centro do olhar, por tanto me parece claro que não ocorre subjetiva. Ou, só subjetiva. E justamente porque Dulac se posiciona por um conceito maior que todos citados, a ruptura. Assim, está lá para ser questionado mesmo, para se parecer com algo, a confusão e o fim das regras como o absoluto. Na busca da arte moderna, do cinema puro, o principal feito desta vanguarda é essa conquista dos eixos quebrados.

Plano 1

Em movimento 1

Plano 2

Em movimento 2

Plano 3

Em movimento 3

Plano 1

Plano 1

Plano 2

Plano 2

Plano 3

Plano 3

Plano 4

Plano 4

Outro ponto foi trazido pelo Cleber, analisando o que a câmera faz em relação a Joaquin Phoenix no filme do James Gray. Pauta que chegou, alias, ao texto da Cinética. Lá, a mente do personagem se junta a da imagem mesmo que ela não tente emular o seu olho, mas sim o seu inconsciente. Essa é uma visão que eu entendo e aceito com mais facilidade. Uma subjetiva que não precisa de eixo. É uma questão factual da imagem: ela segue o olhar dele, ao invés de imitar. Na janela, quando Gwyneth mostra os seios e vimos um recorte de espaço, assistimos mais uma vez um plano desse tipo. Ele não vê mais todo o espaço a sua frente, mas aquilo que ele realmente quer ver. O foco é a imagem. Por tanto, as subjetivas nem tão subjetivas, aqui, me parecem verdadeiras subjetivas – ainda são imagens subjetivas à câmera, mas conceitualmente são unidas ao olhar do personagem. Algo que não vejo no caso de cima.

Plano 1

Em movimento 1

Plano 2

Em movimento 2

Plano 3

Em movimento 3

Plano 5

Em movimento 4

Plano 5

Em movimento 5

Plano 6

Em movimento 6

Plano 7

Em movimento 7

Plano 8

Em movimento 8

E no terceiro ato, boto em cheque o que acabei de questionar. Com um filme do meu cineasta mais querido, proponho um curto com o meu conceito. Halloween trás nos seus primeiros minutos não só o mais brilhante surgimento da operação de steady-cam, mas um enorme plano seqüência sob o ponto de vista de Michael Myers, sobre quem não se sabe nada naquele ponto. Apenas que observa, ronda, prepara, e mata sua irmã. Mais que um ponto de vista, subjetivo à um personagem, que inclusive não fora construído – o que queima minha idéia de dramaturgia/estética do Two Lovers. Carpenter torna ela, câmera, e ele, personagem, único: possui braços, empunha uma faca, respira, VESTE. A câmera, então, é mais que cúmplice, voyeur, ela é a assassina. Um plano subjetivo, um plano objetivo…? Não vejo termo técnico, ou mesmo conceitual, que dê conta, de fato, dessa imagem.

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Para ouvir gratuitamente 30 segundos de cada faixa.

Disco épico

Disco épico

O encontro apenas como encontro não basta, e sim a fagulha que ele gera. A troca de energias, seja na similaridade, seja na total diferença. Um álbum ao vivo parte do registro da intensidade dessa exposição de uma seleção de canções para um público, o autor executando sem a segurança e estabilidade do estúdio e querendo ou não, a reação do próprio público. Reação essa que na maioria das vezes não me agrada, música foi e sempre será algo introspectivo para mim, talhado, esculpido, e não visceral. Tirando essa particularidade, e como tudo possui uma exceção, um encontro épico que me parece merecer uma reflexão mais aprofundada é o disco gravado após a série de shows que Chico Buarque e Maria Bethânia fizeram no Canecão, em 1975. Reflexão pessoal, e não crítica, de dimensionar o registro desse disco e o que aconteceu naquela noite.

A intensidade

O compositor que prefere não cantar contra a cantora que não compõe, mas morre no palco. A sutileza contra a força, o onírico contra o carnal, o aprumado contra o voraz, o homem e seu eu-feminino contra a mulher e seu eu-masculino, a dualidade, a energia que transpassa, o apolíneo e o dionisíaco. Uma absorção do oposto, uma entrega sem pudor, um palco que incendeia. Não uma parceria simples ou um encontro de acaso, Chico Buarque e Maria Bethânia naqueles shows foram um só, principalmente por serem opostos. Os indícios das energias, das músicas escolhidas e dos papéis que se invertem, se decalcam e simplesmente desaparecem me põe a repensar esse disco. A sensação da nudez de ambos, de Chico nunca ter sido tão Chico e ao mesmo tempo tão aberto para algo diferente, e Bethânia, nunca tão voraz simplesmente porque frente a frente com Chico sua voracidade aumenta sem limites. Papéis marcados, papéis que não existem, nudez pura. O bom moço tímido e genial contra a cantora lasciva e frenética, a Abelha-Rainha. Não à toa foram os últimos shows de “cadeira” que Chico Buarque fez encarando uma temporada. O desgaste é palpável a cada nota que se ouve. O momento passa, o registro fica. Sorte de quem escuta. E ainda mais de quem esteve lá.

O espetáculo

Tudo se inicia com Chico cantando “Olé, Olá”. Como se saudando seu público, Chico inicia sua exposição com o que ele é. A canção dos tempos de FAU, a inocência do compositor que não sabia que era compositor, e do homem que era menino. Chico não apenas expõe, ali Chico é. Até que entra Bethânia. A intensidade de sua voz já marca o que vem por ai, ela é o trem que passa e não existe mais volta. Sua voz é contida, porque tudo tem seu tempo. E o tempo ia parar pra ouvir. O pedido de espera porque algo maior está por vir.

(Chico) Não chore ainda não, que eu tenho a impressão
Que o samba vem aí
É um samba tão imenso que eu às vezes penso
Que o próprio tempo vai parar pra ouvir

Após, Bethânia se apresenta com “Sonho Impossível”. Mas ao contrário de Chico que se faz notar, Bethânia se faz sentir. A fagulha da explosão que vem por aí, a voz que a cada compasso ganha força. E o principal, marca que ali naquele momento o tempo não é tempo, a ditadura não é ditadura, e o ser humano não precisa agradecer por ter a chance de sentir. Que morram ali, mas viver é maior que isso. O palco como a vida, o instante que é vida. A certeza que viver é confrontar, e morrer por aquilo se precisar.

(Bethânia) E amanhã, se esse chão que eu beijei
For meu leito e perdão
Vou saber que valeu delirar
E morrer de paixão

Depois, o primeiro olho no olho. O apego ao instante e seu caráter passageiro, não bom ou ruim, apenas imutável na sua efemeridade. O se olhar polido, respeitoso. Paulinho da Viola e sua composição genial “Sinal Fechado”. A interpretação cordial de quem irá em seguida morrer de amores no palco. O saber que aqueles momentos nunca serão tão completos quanto deveriam.

(Chico) – Tanta coisa que eu tinha a dizer, mas eu sumi na poeira das ruas…
(Bethânia) – Eu também tenho algo a dizer, mas me foge à lembrança!

Após, “Sem Fantasia”. Chico e Bethânia viram amantes, Bethânia clama pela entrega do “menino”, Chico que se entrega independente de tudo. Aqui acontece o ápice de ambos, e até o fim nenhum será mais o mesmo. Bethânia clama por seu menino vadio, clama pela entrega, entrega calcada na própria inocência. Mas o principal é clamar pelo corpo. Ela quer o corpo sem restrições. Chico se entrega, mas sabendo da dor que é fazer isso, do ir contra tudo o que se achou ser, de tudo que viveu. Os dois terminam cantando juntos, intensamente como dois amantes que são.

(Bethânia) Vou te envolver nos cabelos
Vem perde-te em meus braços
Pelo amor de Deus

(Chico) Não vou me arrepender
Só vim te convencer
Que eu vim pra não morrer

(Chico) E agora que cheguei
Eu quero a recompensa
Eu quero a prenda imensa
Dos carinhos teus

A mulher que nunca terá o que quer e precisa porque nada será tão intenso quanto ela em “Sem Açúcar”. Que morre de amores, que apanha se precisar, mas estremece de amor. O amor sem justificativa, o amor sem razão. Bethânia marca bem que naquele momento morre pelo seu homem sem pestanejar.

(Bethânia) Longe dele eu tremo de amor, na presença dele me calo
Eu de dia sou sua flor, eu de noite sou seu cavalo

(Bethânia) A minha paixão é piada, sua risada me assusta
Sua boca é um cadeado e meu corpo é uma fogueira

Depois, Chico se posiciona como a “mulher da relação” naquele instante em “Com açúcar, com afeto”, ao usar seu eu-feminino. A inversão dos papéis, a fragilidade masculina de quem não se importa com o que se deve fazer, se importa com sentir. O alheio ao pré-definido, o igual para igual. O amar sem se importar com o que deveria ser, e sim com o que é.

(Chico) E ao lhe ver assim cansado, maltrapilho e maltratado
Como vou me aborrecer? Qual o quê!
Logo vou esquentar seu prato, dou um beijo em seu retrato
E abro os meus braços pra você.

A lembrança de um amor que passou, ou que vai passar. Os indícios, a serenidade do voraz que também pode ser pacífico. Bethânia vivencia seu eu-masculino em “Camisola do dia”, se põe introspectiva, como um amante que fala com si próprio sobre o amor que passou.

(Bethânia) A camisola que um dia
Guardou a minha alegria
Desbotou, perdeu a cor
Abandonada no leito

Em “Notícia de Jornal”, o amor que só importa aos dois, o mundo não se interessa. O momento que, por mais que seja compartilhado, é egoísta. Egoísta porque nenhum da platéia sente mais do que os dois sentem, o momento do artista e seu palco. Amor que vai acabar e não interessa a mais ninguém. A simploriedade do amar, e do acabar.

(Chico) Ninguém notou
Ninguém morou na dor que era o seu mal
A dor da gente não sai no jornal.

Em “Gota d’água”, Chico e a fragilidade de alguém que pede para ficar em paz. O quanto um amor consome até as vísceras, e como vivê-lo é viver e morrer.

(Chico) Olha a gota que falta
Pro desfecho da festa
Por favor…

Se o ápice emocional foi “Sem Fantasia”, o ápice intelectual, moral e político é “Tanto Mar”. Se a música em si já é um atestado contra todo o cenário brasileiro de 1975, naquele dia a censura não permitiu a utilização da letra. A música só pôde ser relançada com uma versão reescrita. O que era o podar virou energizar. As palavras não proferidas ganham mais forças ainda na intensidade das palmas, na calorosa revolta, no inconformismo imensurável. A cada palma, um renascimento. Impossível me furtar em replicar a letra original da música, magistral, enquanto as palmas ecoam até hoje.

(Chico) Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim

Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim

Em “Foi Assim”, as indagações da mulher que sofre e nunca consegue amar. Ama, mas nunca é correspondida, ou quando consegue a reciprocidade, nunca sente a firmeza da incondicionalidade. A vontade de berrar, o não agüentar, o querer amar.

(Bethânia) Se todos no mundo encontram seu par
Porque só eu vivo trocando?
Se deixo de alguém
Por falta de carinho
Por brigas e outras coisas mais
Quem aparece no meu caminho
Tem os defeitos iguais

Em “Flor da idade”, a inocência da descoberta. O amor puro e descompromissado. O descobrir o amor sem amarguras, sem ranços, sem traumas, sem expectativas além do frio na espinha. Chico encarna o pueril.

(Chico) Vê passar ela, como dança, balança, avança e recua
A gente sua

Despudorada, dada, à danada agrada andar seminua
E continua
Ai, a primeira dama, o primeiro drama, o primeiro amor

Em “Bem Querer”, a obsessão. O morrer e matar pela pessoa amada por ela ser sua, só sua. Aqui ambos compartilham a loucura ao cantar, Chico e Bethânia, mas ambos com postura serena. Bem querer na insanidade, na possessão.

(Chico) (Bethânia) E quando o seu bem querer dormir
Tome conta que ele sonhe em paz
Como alguém que lhe apagasse a luz
Vedasse a porta e abrisse o gás

O sofrer continua em “Cobras e Lagartos”. O amor que não se completa, a vontade de fugir.

(Bethânia) Me devolva aos meus travesseiros
E perco o meu sono
Que coisa ruim
Eu só sei que a imagem dele
Pregada na insônia
Não desgruda de mim

A inclusão de “Gita”, composição de Raul Seixas e Paulo Coelho, com interpretação de Bethânia me soa como um disparate. Faz sentido, dado que viver não é esperar coerência. Um atestado da existência do inferno, de que nem tudo é perfeito. A discrepância dessa música em comparação às demais é gritante. Vejo Chico claramente torcendo o nariz, e Bethânia sentindo um leve desarranjo intestinal. Mas aqui, o pessoal fala ainda mais alto que nas demais interpretações.

E em seguida, o fim. A despedida festiva dos amantes que se amam, mas não se conhecem. Que viveram, mas não sabem o que acontecerá. O samba que vem lhes buscar, e traz a alegria do incerto. O infantil, o verdadeiro. Em “Quem Te Viu, Quem Te Vê” a troça com a mulher que não é mais do samba, o sarro com quem não sabe viver algo como aquele momento. O samba de rua contra o samba de galeria. O viver na simplicidade, a alegria porque não do próprio pobre, que nada tem, mas que não precisa de nada.

(Coro) Quem não a conhece não pode mais ver pra crer
Quem jamais esquece não pode reconhecer

(Chico) (Bethânia) Eu não sei bem com certeza porque foi que um belo dia
Quem brincava de princesa acostumou na fantasia

Em “Vai Levando”, a brasilidade do momento. O não ter opção a não ser seguir em frente, lutando, brigando e quando precisar, fingindo.

(Chico) (Bethânia) Mesmo com o nada feito, com a sala escura
Com um nó no peito, com a cara dura
Não tem mais jeito, a gente não tem cura

E com tristeza, o desfecho com “Noite dos Mascarados“. O não ter certeza de nada do que aconteceu, a utopia carnavalesca, o voltar para o mundo apenas amanhã, hoje não. Hoje eles são apenas um, são amantes, são vivos, morrem de amor. E que o amanhã nunca chegue, o que importa é o hoje.

(Chico) (Bethânia) Amanhã tudo volta ao normal
Deixa a festa acabar, deixa o barco correr, deixa o dia raiar
Que hoje eu sou da maneira que você me quer
O que você pedir eu lhe dou
Seja você quem for, seja o que Deus quiser

Músicas do Disco

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Chico Buarque fala de Dona Maria Bethânia
Chico Buarque fala sobre Maria Bethânia. Trecho tirado do documentário “Maria Bethânia do Brasil”.

Chico Buarque e Maria Bethânia – Sem Fantasia
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A internet constrói fenômenos em um par de dias. Esses fenômenos costumam ser absolutamente perenes. De repente a coisa surge, por uma ou duas semanas só se fala daquilo, mas logo o assunto some e outro aparece. Acho isso extremamente interessante e acho, acima de tudo, que esse momento de “o assunto” merece ser valorizado e aproveitado.
Esse mês apareceu o ET do Panamá. ETs e criaturas bizarras são um dos preferidos para surtos de vídeos e discussões pela vizinhança. E, num país onde a internet ainda é privilégio de alguns, a TV acaba por ter papel nessa história. Os vídeos, fenômenos na internet, tornam-se fenômenos nacionais quando são veiculados em alguma emissora de televisão. E, nesse caso, quem entrou na parada foi a Globo, não deixando passar a força que tem um burburinho em volta de um mito como um ET. Durante a semana passada as chamadas do Fantástico diziam que ali veríamos a verdade sobre o ET do Panamá; criou-se um mito em cima do mito. O mito ET passou a estar ligado ao mito Fantástico (revelador, exclusivo, um caráter que, na verdade, está meio esquecido no programa), que se apropriou de um assunto que, originalmente, para nós, estava liberto na internet. Aí vem o primeiro questionamento: a Globo adotar esse discurso de única possuidora de uma verdade relativa a um assunto que está “na boca do povo”. Sendo ela, a emissora, colocada como detentora da voz enunciadora e explicadora, única capaz de revelar às pessoas o que elas estão pensando.
Bom, isso é muito babaca, mas está longe de ser surpreendente. O choque veio do esvaziamento dramático da “revelação” dessa verdade. Impossível não lembrar e comparar com o ET de Varginha. Minha memória do caso mineiro não me permite analisá-lo como procedimento de reportagem, mas eu tenho essa lembrança, existe imaginário. Lembro de sensações, do meu medo com uma câmera, estilo “subjetiva do monstro”, caminhando na mata a ponto de atacar ou ser atacada. O ET de Varginha se tornou um caso, houve dramatização, criou-se um clima na reportagem, exagerou-se, fez-se sensacionalismo. Sem julgar a escrotice ou a qualidade da dramaturgia utilizada, criou-se dramaturgia e ponto.
Agoram, no ET do Panamá, a busca foi pela explicação aos idiotas. Venderam sua reportagem como a verdade científica por trás do vídeo, mataram, sem dó, o mito, as discussões, as teorias, ou seja, a dramaturgia. Ao contrário de Varginha, quando o caso ficou num aberto suspense, aqui tudo se fechou de forma rasa; um sujeito, apenas um, veio e explicou tudo. Nós, para a Globo espectadores idiotas, temos que acreditar e aceitar sua versão do “especialista”, figura essa, repugnante e recorrente na emissora.
Isso me lembra muito os depoimentos “reais” ao final de Viver a Vida, a catástrofe das 8 assinada pelo Manoel Carlos. A “verdade” e o discurso tido como “realista” são muito mais importantes do que a dramatização e, inclusive, do que o drama em si. Isso é muito sério, por além de mostrar o descaso com a própria linguagem mostra o descaso com o indíviduo; o que importa não o drama, a história daquela pessoa, mas sim a carga de realismo que ela consegue representar diante da câmera.
O que a Globo fez com o ET foi um assassinato sem dó. Matou uma história, um imaginário, uma brincadeira. E matou porque quis matar, sem evidências de falsidade; foi um posicionamento, uma opção como instituição e como forma de se fazer jornalismo e entretenimento. Ela pegou para si e jogou no lixo, privando seus espectadores dessa história.
Eu acredito no ET!

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Essenciais

Aproveito para passar lembretes sobre eventos organizados por amigos que serão essenciais. O primeiro ainda está pro fim do ano, mas será uma mostra com os filmes realizados na Alemanha oriental, pela DEFA, são basicamente raros, e certamente terá muita coisa que precisa ser vista. De 50 à 80, são inúmeros os filmes e também serve como possível descobrimento histórico do período cultural que ali está abrangido, quais são as imagens que seriam plausíveis então – um estudo que se faz permitido inéditamente. O Outro Lado do Muro é o nome, e será preciso torcida pra SP poder ver isso.

A outra é pra já. A Semana dos Realizadores é um evento que ocorre uma semana antes do Festival do Rio, mas que merece uma relevância como tal. Permitirá a exibição de diversos longas recentes de cineastas que estão mais ou menos à margem do circuito oficial. É um contraplano dos festivais oficiais. A programação faz opções realmente muito interessantes, exibindo não só os alternativos manjados (Duda, Bragança) e necessários, como caras mais fora de tudo vide Rodrigo Aragão, Gustavo Beck, e até mesmo um caso diferente como o Sagrado Segredo.

Os sites:

O Outro Lado do Muro
Semana dos realizadores

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O momento único, que dura poucos segundos e a imagem que se propaga por milhões. O registro não pensado, a encenação real da vida.  Liga-se a câmera, e um bando de infantes se posiciona alegremente. Fazendo troça, zombeteando. O registrar nada, o ser surpreendido pela dimensão da própria imagem. Um anão de gente que rouba toda possível imagem.
O suposto pigmeu do bulevar, a brasilidade pura, a latente troca de voz e o assovio de cachorro ao falar. O terceiro mundo, a boca torta e rígida, a ausência de dentes e o cagar para todos. O manifesto anti-primeiro mundo, o não se subjugar, o pronunciar errado e aportuguesar a palavra que denota o estilo livre de viver. Freestyle, mas que em sua boca torta se torna Fístaile. O ódio ao consumismo, ao mercado opressor, à ganância da falsa burguesia brasileira, aos empresários discípulos de Roberto Justus e seus Everests corporativos.
Pequenino, feinho, mas imenso. O riso dos milhões, a vontade recorrente de acompanhar o pobre menino virar as costas para todo o mundo. O xingamento mal pronunciado, o dedo no olho enfiado pela própria amiga. Uma tomada de postura; questão de sarro e rebeldia.
A boca torta clama por direitos iguais

A boca torta clama por direitos iguais

O momento único, que dura poucos segundos e a imagem que se propaga por milhões. O registro não pensado, a encenação real da vida.  Liga-se a câmera, e um bando de infantes se posiciona alegremente. Fazendo troça, zombeteando. O registrar nada, o ser surpreendido pela dimensão da própria imagem. Um anão de gente que rouba toda possível imagem.

O suposto pigmeu do bulevar, a brasilidade pura, a latente troca de voz e o assovio de cachorro ao falar. O terceiro mundo, a boca torta e rígida, a ausência de dentes e o cagar para todos. O manifesto anti-primeiro mundo, o não se subjugar, o pronunciar errado e aportuguesar a palavra que denota o estilo livre de viver. Freestyle, mas que em sua boca torta se torna Fístaile. O ódio ao consumismo, ao mercado opressor, à ganância da falsa burguesia brasileira, aos empresários discípulos de Roberto Justus e seus Everests corporativos.

Pequenino, feinho, mas imenso. O riso dos milhões, a vontade recorrente de acompanhar o pobre menino virar as costas para todo o mundo. O xingamento mal pronunciado, o dedo no olho enfiado pela própria amiga. Uma tomada de postura; questão de sarro e rebeldia.

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Chile

OK, o Chiko tratou de forma bem direta da resolução dos problemas que nasceram ali, durante o jogo. Eu quero pensar no porque o Chile foi um adversário, no porque Alexis Sanchez é tão bom. Afinal, causar expulsões – a dele, convenhamos, um absurdo, já que foi amarelado ao levar um tapa do André Santos. Falam do Felipe Melo, mas o André foi pior. No lance do gol, quem marca o ponta por aquele lado é ele, perde fácil pro Sanchez, o Felipe não é muito melhor e acaba fazendo o penalti, talvez desnecessário, e talvez se o André fizesse o mesmo, não teria gol. Mas não vou defender que ele devesse fazer a falta, mas pelo menos oferecer dificuldade. Uma marcação decente faria o cara pelo menos ter corta-lo, demorando o lance. Foi mal na contenção do Alexis, não subiu com presença, e ainda foi violento… É só um jogo. Mas é caso de se pensar. O Felipe Melo fez erros feios, jogou mal. E são erros normais pra ele, até. É sempre um cara nervoso, sempre inventa com seus passes bisonhos de letra. Parece eu jogando no futebol de quinta. Só que isso é um lado dele, o resto ele é excelente, oferece coisas que ninguém foi capaz de. Acho um titular absoluto, e digno. Essa coisa de não querer jogador louco no time é chata. Sou mais Felipe Melo que Gilberto Silva.

Sobre o Chile, o ataque é bom, mostrou envolvimento, o Bielsa mostra mais uma vez que domina os times. Surreal o papo do Galvão, que queria que ele defendesse quando empatou. Caçoou até. O time não tem defesa, e seria babaca, escroto e tosco com um a mais, um time bom de ataque, querer o empate. Muita gente diz que tem que se jogar na defesa pra ganahr do Brasil, e é fato que time ruins dão mais dificuldade, mas dão porque não tem mais o que fazer. O Brasil estava com sérios problemas, jogou bem no começo, mas após a expulsão, parecia mesmo que poderia cair. Foi aí que entrou o post abaixo. E eu comento os méritos dele estar na seleção, afinal no Brasil, o Sandro era melhor opção se pensarmos num volante que fica. E o Pierre está fora da temporada. Fora isso, gosto do Fabricio, mas ele é menos volantão também. Ousado foi não colocar o experiente Lucas. Ousado e inteligente, pelo que ele vem apresentando. Denilson e Anderson na seleção, é o ideal para mim, as opções de movimentação certeira. Num jogo desse, com o Ramires fora, o Anderson entraria em qualquer posição.

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A falta de ar

A falta de ar

O confrontar, o se expor, e principalmente, o respirar. Logo no primeiro plano, assustadoramente belo, o personagem de Joaquin Phoenix, Leonard Kraditor, caminha pelo píer com uma camisa engomada em suas mãos. Lento, incômodo, ansioso. O que se prossegue é o acontece em outras obras de James Gray, que é o confrontar o próprio âmago. Como Bobby Green (Joaquin Phoenix) e Joe Grusinsky (Mark Wahlberg) em Os Donos da Noite enfrentaram o que eram, inclusive ao aceitar a omissão e as próprias mazelas no caso de Joe, aqui Leonard enfrentará problemas com um teor psicológico mais explicito, e não apenas marcas de uma vida dolorosa e segregadora. O personagem de Joaquin é transtornado e se entrega a isso. Mergulha no mar como se encarasse o espelho. E volta, pacificamente nas imagens, para sua realidade. Mas a suposta realidade na qual vivemos muitas vezes é uma projeção das expectativas de todos que nela já viveram ou vivem. Ora falsa, ora burra, ora superficial. Leonard representa o oposto, o flagelado pelas emoções não controladas, pelo transgredir. Sem medo, ou melhor, ciente do medo, e de que viver implica sentir medo. O não saber viver sem sentir medo. Abraçar o momento, intensamente, sem indiferença, mas repleto de dor.

A família de Leonard. Complacente no amor incondicional e conformada com perder o filho no mais súbito dos momentos. Seja no suicídio, no fugir, no enlouquecer. A total apatia do filho, sem pretensões, nem ao menos em levar o negócio da família adiante. Gray filma a dificuldade da relação familiar com alguém que não sabe jogar a sujeira por baixo do tapete. Amor de pai, de mãe, eterno. A família como entidade indivisível mesmo no momento da separação. A dor no olhar da mãe que não entende o próprio filho, apenas o aceita. A câmera que acompanha o esquisito Leonard em seus trejeitos, aspirando uma normalidade que no fundo não existe, que no fundo é irrelevante. A dor do não se encaixar.

O encontro dos amantes. O amor de conveniência, que parece ser certo, aquele que não representa nada, mas pode ser especial. Vanessa Shaw, interpretando Sandra, como a normalidade. E Gwyneth, interpretando Michelle, como a voracidade que Leonard também carrega. E nesse meio, os pais tentando garantir a paz do filho, inclusive na futura aliança comercial com o pai de Sandra; e Leonard, que ao conhecer Michelle encontra o real sentido da sua existência ali naquele momento, não na racionalidade, e sim na intensidade.

Joaquin absorve Leonard. Seu jeito esquisito de andar, os braços tensos, o olhar afobado. As tentativas de inclusão, como no clube na qual aceita entrar no meio na pista executando alguns passos com surpreendente naturalidade, ou quando improvisa um rap no carro no caminho para o mesmo clube. Michelle, tentando se livrar das drogas, e Leonard, que encontrou a droga que deu rumo para sua existência ali naquele momento, a própria Michelle. A entrega física de Leonard a Sandra, fria e protocolar, e a combustão ao se aproximar de Michelle, mesmo sem contato físico. A imagem que incendeia a cada vez que Leonard vê Michelle.

Michelle e sua tórrida relação com um homem casado. Relação dependente fadada a falhar. E Leonard tentando conquistá-la. Os encontros no topo do prédio, o ar frio que rasga as emoções, a câmera que acompanha o desconforto de Leonard e Michelle. O amor suicida. A declaração mal recebida, mas aceita, estranha. O coito frenético e cheio de descarrego.
O fugir juntos. O abandonar tudo, sendo que o tudo é nada. O fazer escondido, como uma criança planeja fugir um dia da escola para brincar com os amigos. O pueril, mas devastador. Os encontros marcados e a execução em plena festa de família. A falta de fôlego ao sair correndo pelas escadas enquanto a namorada sobe pelas escadarias. E o confrontar com a mãe, que o aceita do jeito que ele é. Apenas quer seu filho vivo e feliz.

Os instantes que duram horas enquanto espera sua desenfreada paixão chegar. A câmera incômoda, a tensão nos movimentos. O plano lento, sufocante, inebriante de Michelle vindo em direção a Leonard. Os trejeitos acentuados. E a separação.

A lente que focaliza o mar, o inevitável suicídio. O reencontro com o inicio, e a paz em se saber que não é daquele mundo. Os pés desconjuntados, que se arrastam pela areia. O olhar de tristeza. O anel, símbolo do viver, agora símbolo do aceitar. E a aceitação, mesmo que temporária, do ser pouco feliz, do abandonar o que se sente. Por enquanto. Até toda aquela intensidade voltar. Amantes é um grande filme, e James Gray capta em cada plano uma sensação irrefreável, sufocante e bela.

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