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Archive for outubro \19\UTC 2009

Le secret d’Emmanuelle

OK, eu e Wata estavamos de saco cheio. Choveu o dia todo, vimos outra derrota, o São Paulo está ruim. Jogamos umas partidas de Winning, duelos incríveis: na primeira, o Wata me destruiu, fez quatro a zero com o Boca no River, me permitindo apenas uma reação leve na volta, 3 à 2. Depois, jogamos outra vez, São Paulo e Sporting. Na primeira, 3 à 1, Morumbi cheio. Hernanes destruiu num gol incrível. Na volta, apesar do pênalti não marcado em Washington, vitória dele, mas com Rogério obrigando nosso querido japonês a se acabar no chão, tacando o controle. Foram as três defesas mais bizarras, que um Winning proporcionou – simplesmente era pra eu vencer na soma dos resultados. 4 a 3 agregado.

Quatro latas de cerveja mais tarde, cada um já estava mais afim de ir dormir que o outro, e o Wata só esperava a chuva. Foi então que surgiu em nossa frente, Telecine Action. Colocamos pra enrolar. Lá estava Os Segredos de Emanuelle. Mas não era qualquer filme. Assistimos, do começo ao fim, chocados. Brisseau estava li, firme e forte. É o filme mais radical que vi em tempos, deixa quase tudo que se vê nos festivais no chão. Vestida para a noite, uma moça se debruça sobre a mesa de sinuca, deixando a saia no limite do esconderijo, e ali surge um taco de sinuca, que vai levantando lentamente sua saia, e mais tarde, fazendo os movimentos lentos de penetração. A câmera então, nos devolve nosso duplo em cena, Emanuelle, assistindo a tudo, perplexa. A música, incrível, o som do filme é absurdo. Adultério, diz um psiquiatra fajuto. Uma banda de rock, e então a montagem surge, já não sabemos se a banda participa de um bacanal, porque um plano nos leva a eles novamente sem cortes, num plano seqüência surrealista.

Luis Buñuel, aonde está você?

A montagem desse filme é do tipo nunca se saberá o que vem depois. Pode ser um monge budista, uma mulher se masturbando, a África, o navio (Querelle? Só pode). As cenas de sexo as vezes surgem de um plano para outro, não respondem a um movimento apenas. Emanuelle quer saber quem é ela. Um sub-Freud tenta falar uma bobagem qualquer. O contraplano é automático: a própria Emanuelle, anos depois, e um velho filosofo, comentam. “A matéria do pensamento”, diz ele. E tome novas viagens.

Não estamos jamais no chão. Tudo é lúdico. Nada é uma alegoria barata, para além da sedução em si. Mais que a velha idéia emanuellista – todas as mulheres merecem o prazer – esse filme defende a beleza do prazer por si. Nada é vulgar, apenas pela vulgaridade. É tudo menos pornográfico.

O avião desce em Bagoc, e nós somos recebidos. É então que surgem planos da cidade, como que filmados por Apichatpong. Os personagens somem. Não mais aparecem, de forma alguma: Bagoc está lá, e só ela. Fechamos com uma paisagem, que revela um falo. E apenas isso.

Quase não colocamos pra fora as coisas que o filme merecia, porque ele realmente te põe calado. Ficamos duas horas falando dele. A cada momento algo novo. O som, os planos, Monges, frases, filosofia. Esse cara TINHA que ser vanguardista.

Watanabe fez a lição e me mandou isso.

“He studied philosophy, was attracted by the Nouvelle Vague and started in the film business as Claude Chabrol’s assistant in 1962.” (!)

As coisas enfim começam a fazer sentido. Mas elas se acomodar, jamais. Francis LEROI. Esse é o nome, a vanguarda que subvertou o mais vazio dos gêneros.

Emmanuelle. Pronta para tudo.  Inclusive para amar

Emmanuelle. Pronta para tudo. Inclusive para amar

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(Por Cleber Eduardo, em sua estreia como colaborador do blog)

Os melhores e maiores momentos de uma arte equivalem aos melhores e maiores momentos de qualquer arte.

A Queda da Casa de Usher

A Queda da Casa de Usher

Uma sequência magistral de Jean Epstein em A Queda da Casa de Usher ou outra de Tempestade, filmes dos anos 20 e 40, o primeiro na cena forte de experimentos visuais-sensoriais na França, o segundo já banhado de experiências poéticas não sem algum realismo, são proporcionais aos grandes momentos de Manet no século 19.

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Por que Epstein e Manet? Poderiam ser outros, mas assumamos nossos lugares, nem que, para assumir, tenhamos de arbitrar.

E para arbitrar, por mais que haja regras, haverá, para além delas, um entendimento do jogo.

E um entendimento passa por processos que não cabem a nós investigarmos em seus meandros. Cabe expressá-los, com todos as limitações, mas também com convicção.

Epstein e Manet nos colocam em um lugar que não é mais o lugar das evidências. O que há de grande e epifânico neles, porque são epifânicos, estão na relação com a percepção, não somente em procedimentos.

Não se trata apenas de usar uma câmera lenta aqui, de informalizar um rosto e colocá-lo na direção das bordas, não se trata de uma técnica enfim, mas de uma expressão geradora de efeitos.

E os efeitos, por mais que sejam pessoais, não surgem do nada. Eles surgem a partir de evidências. São frutos de uma relação.

090821diego_juventus

Esses grandes momentos epifânicos da imagem, seja ela em movimento estilizado com poesia, seja ela uma poesia de movimento estático, podem ser encontrados em Diego, não o Velasquez, nem o Rivera, mas aquele do Juventus, que não é o da Javari, mas o do Delle Alpi, em Turim.

Por que Diego e não Kaká, e não Cristiano Ronaldo, e não sei mais qual artista da bola? Por que precisamos arbitrar e, quando Diego pega na bola, levanta a cabeça e conduz o ritmo da obra (o jogo), vendo o fora de quadro, ainda dentro do campo, não sem usar a câmera lenta aqui e a aceleração ali, podemos ver também Epstein e Manet em seus momentos epifânicos

Esses momentos são efeitos a partir de suas jogadas, mas não são as jogadas e, sim, as jogadas em relação à nossa visão. Diego não parece estar nesse momento nos planos de Dunga. Assim como Epstein e Manet não parecem estar no campo de visão de muitos estudiosos e críticos.

Seria o caso de chamar alguns de cegos? Ou de apenas constatar que eles não estão em relação ás evidências, mas fechados em suas teorias sem evidência alguma? Cegos, portanto?

Não vou entrar nessa papagaiada de soltar rojões para Dunga porque agora a seleção não perde e porque está jogando “bem”. Futebol para mim é uma outra coisa. É Diego. Assim como arte para mim não tem a ver com funcionalidade e competência. Tem a ver com expressividade.

juventus mooca é mooca

Não sei se com competência ou se com expressividade, o Juventus, esse o da Javari, da Mooca, parece estar a lembrar de sua expressão. Está entre oito pequenos paulistas em busca de uma vaga na Copa do Brasil no campeonato que não mobiliza uma linha nos jornais de São Paulo. Seria o caso de chamá-los de cegos?

Ora, o Juventus, o da Javari, é patrimônio da cidade. Deveria ter cobertura diária, aparecer nos programas de TV, ser chamado às mesas redondas. Não precisa jogar bem ou ganhar. Juventus é poesia macarrônica, de versos tortos, mas expressivos. É Candeias, Ody Fraga, versos na pedra, não sem inteligência, mas em nome de uma resistência, não de uma adaptação. É como o armazém dos espanhóis aqui da rua, na Aclimação, que vendem suco de uva verde, não soda limonada

Com competência e expressividade, Two Lovers, tradução Os Amantes, de James Gray, é outro exemplo de poesia expressiva. Não sei se de resistência, mas de proposição. Ha quem veja em suas imagens apenas ilustração de roteiro. Seria o caso de chamá-los de cegos por não estarem em relação com as evidências?. E elas pululam.

James Gray e Two Lovers são estímulos para quem deseja lidar com imagens. Epstein e Manet também. Diego e o Juventus, da Javari, por diferentes caminhos, não estão fora. Um estudante ou um amante de cinema e/ou pintura e/ou futebol, amante de arte, deveriam ver Epstein, Gray, Manet, Diego e o Juventus na Javari

Questão de relação com as evidências

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