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Archive for abril \21\UTC 2010

Neymar e Ganso

A imprensa mais uma vez vem apelando e suplicando em busca de uma mão na convocação da seleção. O Roberto Carlos brincou numa entrevista que não se tem idéia da força da imprensa sob os convocados. E que não falaria disso enquanto atuasse. OK. Não significa nada, mas confirma dúvidas.

Em 2002 tivemos o caso Romário. Lá se assemelhava muito ao de agora, dos meninos do Santos. A imprensa oficial quis porque quis a ida do atacante. O Felipão não quis. A torcida embarcou, pedindo muito. Toda partida era gritos de Romário, e muita gente pedindo. A imprensa menos oficial, não era tão afim. Se dividia. Eu acho que ele começou a ganhar a Copa ali, ao não convoca-lo. 2006 foi mais leve. A imprensa pedia o futebol mais pra cima, menos óbvio. Queria os cinco atacantes, o que se viu é que Parreira não quis e deu errado. Daria errado com os cinco também, eu aposto. Os problemas eram maiores e daqueles jogadores, apenas Káka foi bem. Outro pedido foi a ida de Rogério Ceni. Esse ele permitiu, tirando o Marcos. Foi legal pros são-paulinos, e pra todos que viam nele alguém que necessariamente teria que estar na seleção. O titular não mudou, Rogério fez uns minutos de Copa, e tudo ficou tranqüilo. Não só porque eu queria, nisso ele acertou. Não mudou o trabalho dele como um todo, e cedeu um pouco à um pedido geral. Seria como não levar o Doni agora. Ainda que levar o Doni seja algo bem mais danoso do que não levar o Ceni.

Agora é a vez da garotada. Acho que os motivos são óbvios. O Santos joga demais, e individualmente eles são de longe os melhores. O Robinho, parte do grupo, tem jogado bem, mas nada mais que muito aplicado. O mesmo motivo pelo qual Dunga adora. Portanto, Robinho nos fins que o Dunga quer chega a Copa muito bem. Sou a favor dos dois. Mas eu discordo generalizadamente do que se diz. O Dunga não está tão errado assim.

A questão da ética de trabalho é séria. Para o Dunga aqueles que ele vê terem isso são pessoas em quem confia. E levar jogadores em quem ele não confia, significa que num fiasco ou numa glória, o ignorariam. Não acho que ele está errado em dizer que o trabalho já foi feito. Mas está claro os jogos de palavra, e que ele deixa a possibilidade de convoca-los. Diz que quem conhece de futebol sabe que não terá surpresas. Muita gente diz que se Káka chegar baleado, e ele chegará, poderá jogar mal ou ser cortado. O Káka tem que operar de novo, e não poderá fazer isso antes da Copa. Então ele vai tentar chegar o melhor possível, mas não se sabe. Ele também não tem uma boa temporada faz dois anos. Pela seleção, joga sempre bem. Confio no Káka, e acho que ele não será um Ronaldinho dessa vez.

Mas pode ser que a lesão fale mais alto e ele não possa jogar. Muita gente diz que não vê substituto melhor que o Ganso. Acho o Ganso ótimo jogador, acho ele mais sério e confiável que o Neymar. Seu jogo é mais pro já. O Neymar ainda tem quedinha pelo amador, que é parecido com o futebol praticado no Paulista. Não sei se ele seria esse cara, mesmo assim. As chances dele travar, ou de simplesmente não jogar bem num time todo novo, é grande. As outras possibilidades: Julio Baptista, ótimo jogador. Não é criativo. Elano, bom jogador, mas também longe de ser o cara pra um time. Diego não vai, e não merece ir, infelizmente. É um cara do caralho, com imenso talento, mas joga mal demais hoje. Não confio nele, e o Dunga confia bem menos. Ronaldinho, vive um momento bom, já esteve melhor, mas culpa do Milan. O problema do Ronaldinho é a história, e ela falará mais alto. Dunga não leva. Ou seja, eu acho que o Ganso pode ir. Tem espaço pra ele. Especialmente porque acho que o Ramires vai de volante.

O Neymar é um caso complicado. Talento, ele tem demais, é o grande acontecimento brasileiro que todos procuram há muito tempo. Inventaram alguns nesse tempo, Robinho e Pato. Mas esse é o Neymar. Só que a questão não é idade, as pessoas falam de Pelé, Ronaldo. O Ronaldo foi e é evidente que o Parreira não pos ele porque não confiava. O Dunga estava lá e sabe. E sabe que ele virou o maior de todos. O Dunga não quer levar alguém pra levar só. E a imprensa e o público também não. Não querem Neymar lá pra não fazer nada, querem vê-lo pelo menos jogar pouco – mas será que o Dunga confia o bastante? Já falei que eu levaria. Mas o Neymar não tem um jogo confiável contra times sisudos, e nem pegou reais pedreiras ainda. Clássico de paulista até o Palmeiras ganhou. Inclusive deles. A questão é séria: Neymar busca erros de zagueiros pra simular faltas, joga constantemente em busca de se auto afirmar em campo. Se a moral se elevar, ele vai com tudo. Não sei se ele renderá na seleção também. E sei que ele terá muita dificuldade, bem mais que o Ganso. Tanto com o futebol internacional, quanto com o do nosso time, lerdo comparado ao do Santos. O Brasil é pesado, joga com quase três volantes em alguns momentos. Joga no contra-ataque, onde ele pode ir bem. Mas é pouco comparado ao Santos, que joga no ataque, com bola. Mas vamos ver. Que o Neymar é um espetáculo, ele é, portanto grandes jogadores talvez superem essas coisas sem demorar muito.

Queria falar também dessa idéia burra. A de que o Brasil levando e colocando Ganso e Neymar pra jogar será o Santos. Não. O time seguirá mais lento, mesmo com três titulares do Santos. E seguirá porque os jogadores são peça fundamental, mas quem decide isso é o técnico. E o Dunga não quer time rápido. E por isso não vai colocar os dois, quanto mais juntos, pra começarem. O Dunga gosta da velocidade da bola, na hora certa. Dar o bote e abrir nas laterais. Káka voando pelo centro, Luis Fabiano preparando pra receber e fazer o gol. Felipe Melo joga pra isso, porque lança bem. Mas também vem muito mal. O Dorival é essencial, Ganso e Neymar jogavam juntos já ano passado. O Santos joga só com Arouca, um volante de saída. Marquinhos joga DEMAIS, é muito pouco comentado. Hoje ele é enfim aquilo que se apostava faz tempos. Um meia armador de toque rápido, não se abala, é um cara em quem se confia. É um meio oposto ao de Dunga, com Gilberto, Felipe dando saída de bola. E ainda tem um meia jogando na lateral, o que talvez o Brasil também venha a ter. O André é sensacional na frente, sempre com posição certa. O time vai bem porque tudo vai bem, e por isso é tão legal. Não é o Ganso e o Neymar que fazem o Santos ser o time. Eles ajudam e muito. Mas não dá pra acreditar que a seleção fique minimamente mais rápida com eles. Até porque pro Neymar entrar, sai o Robinho. No que eu não sei se sou a favor, acho o Neymar meio Messi, pode jogar em todos os lugares ali de frente.

E pode ser que o povo chore mais. Porque o Adriano pode não ir para a Copa, pela fase bizarra que vive, onde faz gols mas não joga bem. E onde mais uma vez a imprensa lhe persegue no pessoal. A torcida já vê ele sem vontade. Será que é, o Adriano tem um desses passados perigosos. Dunga não me parece ter ele em tamanha confiança. Mas ele está mais perto que outros. E se ele não ir, acho que não necessariamente o Neymar vai. Tem outros brigando. Outros que foram convocados. Ou seja, eu levava, mas acho que no fim não vão, e o Ganso tem um pouco mais de chance de ir.

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Mitologia

A Capital dos Mortos, de Tiago Beloti

A Capital dos Mortos, de Tiago Beloti

Mangue Negro, de Rodrigo Aragão

Assisti a estes dois filmes brasileiros recentes de zumbis. São filmes, especialmente o Mangue Negro, que chegam muito recomendados por cineastas como o Carlão, e também pela classe critica. Mas queria fazer uma analise que diferencia bem diretamente os dois filmes. Porque estamos em territórios um pouco tortuosos, visto que o subgênero filme-de-zumbi é algo de codificado em excesso. A pós-modernidade dos zumbi é a lógica Shaun of the Dead. Criatividade com referência.

A Capital dos Mortos é um filme de Brasilia. E isso é bem importante, e visualmente parece que o filme manda muito bem em se utilizar da cidade. Muitos pontos intimos aos brasilienses, como os realizadores, são explorados. Talvez coubesse mais narrativa neles, e menos apenas imagens. Mas é um lado do filme que acho interessante, de como paralelamente praticamente assistimos o espalhar deles pelos lugares. Um filme que coloca o espaço geográfico da cidade em primeiro plano, nem que seja como piada interna. É bom. Acho o filme especialmente inflado, que ele sustentaria ótima hora, mas que tem muita sequência e subtrama desnecessária. Falo especialmente da idéia do Josefêr. A idéia de um homem não mordido que é idêntico à quem foi mordido pelas suas deficiências é sensacional, e fiquei muito feliz de ver que o filme tinha noção disso na sequência do Lucas com ele. Mas acho que a maioria das partes em que o Josefêr tá em cena são mal amarradas e perdidas na narrativa do filme. Acho uma boa idéia que não deu tão certo. Não deixa de ser interessante que tenhamos um narrador, e que a narrativa do filme vá tão contra ele – é o personagem menos aparente, descrito, conhecido por nós. E o filme mesmo sabota, colocando em cena um personagem com o qual ele nunca cruza, o Josefêr.

Há algo de incrível na forma como o Tiago Beloti conseguiu fazer uma narrativa tão despojada. O filme tem esse espirito pós tudo, consciente dos zumbis e de seus estilos, no entanto não se deixa levar por referências a cada minuto. Mas acima de tudo ele constrói uma narrativa do tipo esperto, livre, que vai e volta no tempo, e isso realmente funciona. Tem sentido com a estética do filme, com o conceito total daquilo. Soa e flui bem. Não é babaca. Impressionante. As introduções mesmo são muito legais. É raro usarem o esquema freeze frame com nome na tela e isso não ser mongolice.

No mais, gosto muito do Lucas. E do outro cara também, o André. Acho personagens ótimos, bem construídos. Uma das coisas que eu mais gosto no filme, é que apesar do uso tosco de thrash metal nas cenas de ataque, é que ele não é nada amador no seu talento dramaturgico. Pra quem vê, aqueles personagens importam. Você quer saber pra onde vão, o que acontece. Num filme amador, a questão é puramente técnica – vão de X a X, vamos ver se os zumbis ficaram bons.

Como diria o Lucas...

Como diria o Lucas...

E aí implica uma diferença, o Mangue Negro não é um filme de zumbis pós-moderno. Quer dizer, ele até é, mas não para por isso. Ele antes de mais nada usa dessa mitologia. E isso que dá valor impressionante pra esse filme do Rodrigo Aragão. Ele não apenas se apossa de uma mitologia com talento como Tiago. O Rodrigo Aragão se apossa de uma mitologia para a partir dessa construir uma própria. O Mangue Negro apresenta sua mitologia única, seu universo e ambiente. A ambição aqui é trinta vezes mais funda. E se o Mangue Negro nem sempre é um filme tão forte, ele é sem dúvida impressionante nisso. Ele te convence e criar esse mundo do mangue povoado de figuras misticas, onde a volta dos mortos nada deve ter a ver com qualquer coisa que não seja lendária. É um mito.

O filme é puro artesanato, no sentido regional mesmo. Se aproveita do estilo, de uma cultura não explorada. É de tradição que estamos falando. E de uma tradição que inexiste. Se A Capital dos Mortos é um filme divertido de horror realizado em terras brasileiras, o Mangue Negro é o horror brasileiro. A apropriação que ele faz da cultura local, do jeito mangue de ser, é algo de brilhante. E o artesanato é visto também na maquiagem, na dublagem. Temos vários personagens construídos na soma de maquiagem e dublagem, mas a figura mais forte do filme, como um todo talvez, é a Dona Benedita. Ela é pura lenda. As roupas, o jeito, a luz de sua casa. É o ponto mais forte do filme. Admito vibrar quando a cadeira vazia se mexe, juro.

Há algo no filme também que me lembrar o Evil Dead. Talvez por se apossar de algumas idéias como ele. O Evil Dead é de certa forma um filme sobre um idiota, uma cabana, e reimaginação com senso de humor dos códigos do gênero. Vejo muita semelhança nesse bobão que é o Luis com o Ash. A diferença é que o Luis não é engraçado, ele é convicto nas suas formas de ser. E falo do Evil Dead e não do II, ali o filme se torna mais cinico. Acho o senso de humor no primeiro mais próximo do Mangue Negro. O cinismo ainda é mais leve, inocente. Ou pelo menos eu leio assim.

O filme é bem frontal, direto ao público, sem rodeios. Acho interessante que ele tenha bem mais ação no começo, sem a invasão completar, do que depois. Quando a noite chega e os zumbis estão a todo lado, a ação fica lenta, escondida. O caos está ali, a qualquer momento ele surge, mas os personagens estão nas escuras. Acho que ele cai um pouco nos confrontos finais do Luis, especialmente quando a cabana começa a pegar fogo. Deve ser o momento mais complicado de realização, mas isso não pode ser justificativa. Acho que não funciona, e o filme só recupera força na pedra. Mas sobre a questão da frontalidade, ele estabelece rápido e com peso esse mundo, a agressividade, o clima. O filme tem uma fotografia que reflete diretamente o que é dito sobre esse mangue: não tem mais nada vivo nele. Adoro o personagem contador de causos, ele mesmo que fita o espectador no plano inicial, e que mais tarde vira mesmo parte da ação. E pensando sobre essa lógica, uma figura tão forte e ligada ao local, talvez não devesse mesmo ter saído de lá. Minha reação inicial ao destino dele foi de achar um erro, agora discordo.

Ash caipira?

Ash caipira?

E esse filme me gera uma questão de principios. O que há no cinema brasileiro que diga respeito a tradição? São poucas. Não fosse pelo Mojica, não sei nem se teriamos tido algo de horror. Nosso único feito para a mitologia do cinema, no que diz respeito ao horror, é o Zé do Caixão. Fora do gênero, também são poucas. Como realização, acho que o Mangue Negro é um bom filme, mas não o considero assim muito melhor que o A Capital dos Mortos. Acho que o A Capital até consegue feitos narrativos que me interessam pessoalmente mais. Mas é preciso dizer que o Mangue Negro é imprescíndivel. É o filme de horror que constrói de fato a sua própria lenda.

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Eu fiquei pensando como tratar essa lista, que tipo de significado a gente pode pensar pra ela. Porque é verdade que essas listas no fundo dizem muito pouco, pra quem acompanha e tem alguma noção sobre o que eu penso… Seria muito fácil fazer uma lista de 20, 30. Seria apenas repetir e fazer escolhas, do tipo tal e tal Eastwood, e afins. Não queria que o recorte fosse amplo. É óbvio que acho Sindromes e o Mal dos Trópicos dos melhores, mesmo eles não estando aí, Antes do Por-do-Sol… Wata, Chiko e eu falamos algumas vezes, e sempre a idéia que tentei trazer foi essa, de que quanto mais pessoal, melhor. E para ser mais pessoal, a lista tinha que ser curta. DEZ. Listas que refletem gostos a gente faz sempre, tem anual, Rio, Mostra. O recorte tinha que ser o maior, pra que as escolhas refletissem diretamente aquilo que para qual o individuo que atenda por ela de fato, na cerne, tenha aqueles filmes no máximo da importancia para si. É uma coisa bem ego, mas até aí esse é o verdadeiro espirito das listas, o de divertir e compartilhar gostos que na verdade só fazem sentido para nós mesmos.

Mas elas significam algo. Permitem leituras. Não quero fazer uma leitura a partir de mim. mas quero clarificar coisas, como o porque de duas partes, e similares. Primeiro, quando sentei sairam cinco. Quando pensamos em fazer da década um acontecimento aqui, tinha pensando em vários filmes. Só que faz tempo, e não quis voltar nisso. Lembro que o Rohmer encabeçava a lista. Abri mão de ordem também, a divisão não diz nada sobre ordem. Acho Amantes Constantes um filme melhor que quase todos. Mas achei que por ordem não combinava com a forma como ela surgiu. Foi meio de sopetão: cinco já. E depois mais cinco. Só que teve uma coisa que notei, que não era a idéia de fato, a idéia era só por cinco porque era tarde e era assim instintivo mesmo, mas que surgiu de que essa lista agiu sobre a seguinte, muito. Afinal, fiquei com ela batendo e martelando, conclui que se foram os primeiros, é porque provavelmente foram os que achei mais importantes. Decidi que a segunda deveria ser mais pura e bruta, no sentido de refletir mais diretamente preocupações e interesses especialmente pessoais. Originalmente não queria colocar Fantasmas de Marte, porque temi que fosse soar fãzisse demais. Mas no fim, seria muito boçal não pôr achando que merecia, ainda mais neste tipo de coisa que quis representar. O que quero dizer é que esses niveis de escolha não refletem niveis de filme. A Vila empatou no primeiro lugar de 2004, junto com filmes que não entraram. Não sei se acho melhor hoje, mas acho que no momento era mais importante pra mim, pra o que eu tenho pensando sobre cinema. Ou não. Porque se for pensar, o Elefante não tá aí muito por culpa dele ter feito um filme ainda maior. Mas não seria injusto uma lista dessas com quatro filmes do Gus Van Sant. Bom, é por aí. Esqueci do Mulholland Dr. esse poderia entrar. Mas agora não rola de mexer, faltou memória

http://www.contracampo.com.br/68/listasnominaisredatores.htm (a lista de 2004)

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Carpenter ondas

Sabem que, com Only Angels Have Wings, Rio Bravo é o filme de Hawks que prefiro. Entre os giganres de Hollywood, Howard Hawks era o mais moderno de todos. É simples, fez obras-primas em todos os gêneros possiveis. Um dia, um canal de televisão me propôs realizar um documentario sobre ele. Dar-me-ia imensa alegria, mas a produção impunha-me que o fizesse directamente em vídeo. E isso não era possível.

Mas para procurarmos uma relação particular entre os meus filmes e o western, penso que, de facto, temos que passar por esta utilização muito tradicional da fronteira. Como sabem, os meus filmes inscrevem-se sempre dentro de gêneros codificados por tradições muito fortes. Da mesma maneira, neste tipo de filmes, os personagens tem também reacções e gestos tradicionais. Mas creio que o western constituiu o gênero americano mais fundado na tradição.

O que pensa, hoje, da evolução do western?

O western foi sempre a única forma mitológica que os Estados Unidos conseguiram criar… Todas as esperanças, todos os medos, todos os problemas das pessoas foram tratadas no western. Nos anos 60, quando emergiu o western-spaghetti, sobretudo C’era una volta il west de Leone, a visão do oeste tornou-se mais maneirista do que a do western americano clássico. Penso no uso do enquadramento em Sergio Leone. É algo de inultrapassável. A abertura de C’era una volta il west, em que vemos um grupo de bandidos à espera do comboio, é uma grande lição de cinema. A qualidade dos enquadramentos e a imaginação na escolha dos planos são impressionantes. A utilização do wide screen demonstra a beleza da imagem – aquelas texturas! Depois repare no modo como Leone multiplica os detalhes insignificantes. É extraordinário. Hoje o western tornou-se ecológico, sobretudo depois do sucesso de Dances with Wolves. É escusado dizer que o acho muito menos interessante.

Na verdade Suspiria influenciou-me mais que L’ucello… Sempre adorei o trabalho de Dario Argento, que tem um formidável sentido visual. Aliás, impressiona-me muito mais seu estilo do que as suas histórias.
(sobre Halloween)

Porque não? Uma das primeiras questões que me coloquei quando comecei a rodagem de Halloween foi: “como utilizar a câmera e o ponto de vista de modo a criar suspense?”. A utilização do Panaglide na sequência permitiu-me identificar automaticamente o ponto de vista de The Shape. De seguida empreguei o Panaglide como se fosse uma grua. A idéia era deixar o espectador numa certa indecisão e fazê-lo duvidar do que a câmera mostrava. Parece-me que se tratava de uma forma bastante nova de instaurar tensão e suspense no écran. E depois de ter encerrado todas as personagens no mesmo lugar, podia fazer tender o ponto de vista do filme para o lado das vitimas. De certa forma o público podia identificar-se com elas e partilhar o perigo que pairava sobre as suas cabeças.

Não, Christine não é um filme assustador, não era na época e não é hoje. E sou inteiramente responsavel

Stephen King, por seu lado, ahca que o filme faz medo, mas não concordo com ele. Penso que falhei completamente na tentativa de fazer de Christine um automóvel terrificante.

(TBEM DISCORDO, e alias, acho que Christine não depende do fato de ser um carro que assusta ou não para ser um bom filme)

Sim, Prince of Darkness é um filme sem qualquer humor. Um filme em primeiro grau, brutal e sem concessões. Fi-lo sob o efeito da raiva e creio isso se sente, com muita força, ao longo de todo o filme. é que Big Trouble in Little China e Prince of Darkness correspondem a um período muito difícil da minha vida profissional.

Em They Live desenha um retrato terrível da sociedade americana. Voltaria a fazê-lo hoje?

Sim, claro. Desde então nada mudou.

Sim. Adoro Invasion of the Body Snatchers, e particularmente a versão de Abel Ferrara. É um filme que fala de medos metafísicos, como o de se crer que não se é um ser humano.

Não acha que o cinema de horror e o cinema do medo são, por essência, um cinema político?

Sim, completamente.

Diria, como Orson Welles, que o papel do artista é criticar os seus contemporaneos?

Adiro plenamente a essa ideia, e é por isso que o cinema que faço é profundamente político

Sim, era uma das ideias. A produção queria que o herói viesse da classe média. Pensavam que seria mais fácil o espectador identificar-se com um herói da classe média do que com um sem-abrigo. Mas eu queria absolutamente que esta história fosse contada do ponto de vista de um desfavorecido, de um excluído. Penso que nos Estados Unidos temos uma atitude muito ambígua face à pobreza. Há muita hostilidade e agressividade para com os sem-abrigo. Com They Live, queria que se compreendesse que estes sem-abrigo são indivíduos desenraizados, em constante deslocação, à procura de um emprego. Não têm um lugar seu.

Devem saber que os Estados Unidos estão hoje, e cada vez mais, parecidos com uma espécie de país fascista. Pudemos pressenti-lo durante muitos anos, mas agora é algo que está verdadeiramente presente. Hoje, a maior parte dos americanos troca de bom grado as liberdades individuais em proveito da ordem, para que tudo seja fácil de alcançar, para que tudo seja liso e limpo. É uma época muito desesperante. Pessoalmente, pensei que era importante incluir no filme um ponto de vista político subjacente, mesmo se Escape from LA é, antes do mais, divertimento.

Se tivesse que viver no universo de Escaper from LA, que lado escolheria?

Oh, adoraria ser deportado para Los Angeles. Considero-me culpado de vários crimes contra os Estados Unidos.

É isso. São trechos que eu puxei da entrevista que Carpenter conceder a Luc Lagier e Jean Baptiste-Thoret, impressa em português pela cinemateca portuguesa. São 100 páginas, então podem crer que isso é só pouca coisa do que tive curiosidade de pôr. Há muita curiosidade, histórias, pontos de vista, comentários pra nós – fãs – vibrarmos e afins. AH, muito importante. Essa entrevista é de mais de década atrás, mesmo que ele tenha realizado só dois (mais um saindo) longas depois. É certo que o tom seria ainda mais pesado. Sempre que falou nessa época recente ele parecia ainda mais descrente na indústria. Mas como um bom Hawksiano, não consegue ver o mundo por outro lugar.

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Segunda

Amantes Constantes

Femme Fatale

Fantasmas de Marte

O Tempo e a Maré

Terra dos Mortos

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