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Concepção visual é desse nível aí com Freddie Prinze Jr., Jennifer Love-Hewitt, Sarah Michelle Gellar & Ryan Phillipe em Eu sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado (1997), de Jim Gillespie.

Estou trabalhando numa espécie de guia, que envolve slashers, o que naturalmente está me levando a reassistir algumas coisas, como esse filme dos anos noventa. Na época, no auge do revival dos slashers, fizeram-se muitos filmes na base das referencias, era muito sintomático do momento. Esse filme veio depois do Panico, e roubava muita coisa dele, menos o talento e a concisão pra conduzir um filme do tipo. Na verdade, ele é inacreditável de ruim, se pensarmos como slasher – o uso da criatividade pras mortes é inexistente. Não tem uma steady-cam que pareça fazer sentido, o que é muito importante em slashers, já que o plano em primeiro pessoa é uma marca, o personagem do assassino é simplesmente um vulto, cujo interesse é no máximo o do seu desenho. Digo isso porque o cara com um gancho na mão, visualmente, deveria ser um vilão digno, mas o que o filme consegue fazer com ele, é pouco ou nada. Jim Gillespie é o diretor, aquele que fez com Stallone um dos filmes que afundaram a carreira dele, D-Tox. Eu não acho tão fraoc, acho bem melhor que esse clássico dos 90s. O mais interessante é que o filme se passa numa cidade pesqueira, e tem toda uma relação que ele tenta realizar, com esse universo, e o fato do herói (Freddie Prinze Jr., o mito) ser de uma família mais pobre e se tornar um pescador ser sua opção pra vida, enquanto os seus amigos, que nem são amigos de fato, são riquinhos que participam de desfiles na cidade. Só que é tão tosco, que talvez o Eu Ainda Sei, que veio um ano depois, seja mais digno como anedota social que ele. Pelo menos lá, o filme finge menos que tudo é uma construção tosca para que personagens sejam cortados ao meio. O melhro desse filme é mesmo que, excessão do Prinze Jr. que foi astro numa época e só, o elenco tem atores decentes e de carreira digna, com Jennifer Love-Hewitt, Sarah Michelle Gellar e Ryan Phillipe sendo os outros jovens. O efeito pop do momento atinge o filme mas tem pouco de interesse aqui. O que só evidência que o talento nunca esteve na concepção estrutural do roteiro.

Achei muito bom esse novo filme dos Dardenne. É evidente que muito do que sempre esteve continua lá, os humanismos exagerados, como o pai que abandona o filho mas não deixa de se preocupar com ele quando ele cai de um muro, mas vejo uma pequena mudança. Tem muito da agressividade – o personagem central é atormentado por espasmos loucos, ele não só comete erros, como os `humanos` de seus filmes, a questão aqui chega num ponto fisíco. É explosivo, fora de controle. A moral ainda circula, o amor da mulher por ele ainda é o que salva sua vida, mas o filme não é apenas um grande caminho pra isso. Há bem mais. Tem composições mais quentes, e a partir do Lorna, vejo que eles já lidam com sobrenatural. Nem tudo que se toca se explica, como a queda vertiginosa do garoto que sai andando, triunfante rumo a vida de amor que lhe espera. Daí que acho muito legal o exagero dramático da trilha – vai de colisão com o excessivo frio do resto, da fabula moral. Embora o caminho já apontasse para este lado, para mais experimentos, para o enriquecimento geral dos filmes, ainda assim não esperava ver algo forte assim, com peso que vai além da jornada determinada ao personagem. Não quero dizer que os outros são ruins, é argumentável que um seja melhor, mas vejo como filmes menos ricos, menos intensos. Talvez mais diretos, efetivamente, mas menos interessantes para além do `formato`.

O Garoto da Bicicleta (2011), de Jean-Pierre e Luc Dardenne

Escrevi aqui sobre o longa anterior, Mangue Negro (2009), do Rodrigo Aragão, justamente porque achava que ele tinha um trabalho que se destacava. Ao contrário da maioria dos realizadores que vivem nesse meio de filme semi-amador, fazendo filmes trash pra consumo deles mesmos, o Mangue Negro se preocupava bem menos com essa expectativa do público. Esses filmes do submundo de horror brasileiro costumam ser preguiçosos, enchendo-se de thrash metal nas sequencias de terror, e basicamente vivendo de roteiros com piadas escatológicas. Tem sempre os caras com mais talento que se destacam. O Aragão era um deles, justamente porque tinha um toque de artesanato – filme de interior. Lidava com mitologias brasileiras, as trabalhava, pensava e criava em cima de coisas muito fortes, ao invés de só se alimentar e copiar filmes de zumbis. Esse A Noite do Chupacabras, que aparentemente é baseado num curta dele, que não vi, não tive oportunidade, é um passo atrás. A defensiva do Aragão anunciando o filme já revelava, de certa forma, a afragilidade dele.

Não acho que ele tenha perdido o toque pessoal. Ainda vejo nesse filme a predileção pelo interior, pela cultura local. Por tentar engendrar algo novo, estruturando uma briga entre duas familias que por terra e ego se atacam o tempo todo. Só que tudo isso perde qualidade se o filme simplesmente só joga as coisas lá. Elas existem, são legais, mas o filme é muito largado. O zelo que ele tem em tantas sequencias naquele filme, como o personagem do velho, o mesmo Marcos Konká que volta nesse filme, aqui parece muito tosco. O filme não tem cena, não tem construção. Técnicamente ele continua na frente da maioria dos realizadores independentes, até mesmo a forma de representar o chupa-cabra acho bem bolada. Mas enquanto lá o apuro dos efeitos se juntava ao trabalho de realização, aqui é só um mérito pequeno.

O filme parece não querer ser cinema. E sim uma brincadeira pra amigos, trabalhosa, feita com zelo e amor, mas uma brincadeira. Não consigo ver a forma como ele coloca as coisas em cena sem notar o carinho pelo universo, a empolgação com as piadas e as pessoas ali. Mas a coisa não vai e o filme só joga para a galera, como se palavrão levasse o filme nas costas. Claro que tem momentos que são engraçados, mas é muito pobre como cinema. Tem hora que parece que não tem ninguém dirigindo, que a coisa só se juntou na montagem e tentou se dar ritmo. Apesar do cuidado de sempre, da bagagem e universo interessante que ele tenta criar – sem sucesso, desta vez, são coisas que estão lá, mas que só as vejo assim, claras e com interesse, porque vi o outro filme dele, que era bom. Talvez se tivesse apenas visto este, se quer teria o que dizer a favor dele. O filme meio que abandona muita coisa, o chupa-cabra mesmo é um fantasma em cena, não tem nenhum valor além do signo. Se no outro o talento lhe colocava como um diferente, esse aqui nao é ruim, só é mediocre. Apenas um outro filme mediocre desses.

Mais que ícone, o mito Fred Williamson em Black Caesar (1973), de Larry Cohen

Black Caesar foi exibido na mostra de blaxploitation do CCBB/CineSesc, é um dos filmes mais paradigmáticos do Larry COhen. Não vejo como um dos melhores, mas ainda assim é um puta filme. É seguramente o melhor filme dessa mostra. Com todo respeito ao Jack Hill, que é um cara com talento, mas seus filmes ganham uma dimensão de público um pouco exagerada. Dentro da comunidade de cinema daqui, só se falou nisso. Enquanto um maestral Cohen estava ali, sem atenção – e olha que ele fecha bem melhor com o tema. Fred Williamson como chefão, cinismo no auge nas piadas-limite de teor racial. James Brown! Uma trilha inteira. O filme dele é um grande mosaico, arquétipo de subida e descida de um jovem que desafia a lógica, tomando dos gangsters um bairro. Cohen trabalha o tempo num nivel especial – estamos numa elipse frenética, anos se passa num corte, mas a dimensão da mudança é puramnete moral/dramaturgica. Sem obviedades e facilidades tipicas do cinema mais recente. Sem cartelas, sem avisos. Só cortes. O filme corre, como a vida do protagonista, rápida e exagerada, sempre no limite, até sua queda, ao estilo Cohen. O Hell Up in Harlem não passou, assim como muitos outros filmes legais do movimento. O próprio COhen fez uma homenagem em 1996, um filme bem legal. O Hell Up é continuação, que tem uma história genial: ao saber do sucesso do Black Caesar, o Larry Cohen foi até os cinemas ele mesmo mandar cortar o fim, na mão, pro protagonista não morrer. Tudo a ver com o cinema marginal brasileiro, em muitos sentidos…

ooo

Eu já sabia quem era esse grande Fernando Di Leo graças ao pessoal dos blogs de genero, que vivem mencionando sua existencia, e pelo Carlão, que já mencionou ele muitas vezes. Esse ano pude ver muitos filmes dele, mais de dez. O cara é mestre, por algum motivo ele acabou ficando mais pelo gueto do cinema italiano, sem alcançar um reconhecimento maior. Não é díficil entender sua obra : são filmes extremamente diretos, filmes de ação mesmo. Mesmo o único que vi que divergia um pouco no genero, era conduzido assim – seu estilo é puro, evidente. Poucos caras fizeram tantos filmes de ação tão fodas, ele fez pelo menos quatro filmes geniais. Aulas de matéria em movimento, montagem. Espetáculo.

Escolhi escrever sobre apenas um filme, para não cair em repetições – embora incriveis, singulares, seus filmes tambem são bastante semelhantes. Optei por Il Boss, por alguns motivos. O primeiro deles sendo que ele tem um dos grandes persongens do mundo dileoiando: Lanzetta. A face de Henry Silva diz muito sobre o cinema de Di Leo, esse ator duro, de face quase sem expressão. Ele fez muitos filmes com Di Leo, mas Lanzetta foi o melhor perosnagem, embora ele seja memorável em tantos outros, como no filme-testamento de Di Leo, o Killer contro killers. Nesse, o universo da máfia começa a colidir, e Lanzetta cresce num periodo de dias em meio a traições, passando de um homem de campo de ação, a um dos poucos comandantes que ficam de pé. É um filme de pouco respiro, que começa já com um primeiro ataque, curiosamente numa sala de cinema. Henry Silva só transforma um projetor em um canhão. Açáo em movimento, aula de como se conduzir uma montagem tensa sem que se perca todo o poder de imagem. Ele usa os ambientes, as cidades, os hábitos dos lugares de forma incrivel.

O Il Boss é de uma trilogia sobre a máfia em Milão que só tem obra-prima. Di Leo sempre trabalha nos cantos da ação com muita subversão, como a filha rebelde do chefão da máfia. Sequestrada, ela pouco se importa. Sua vida se tornou um grande vicio, no sexo e nas drogas. Em algum momento, Lanzetta cruza seu caminho. É o unico momento em que o destemido Silva parece sentir mais do que o desejo de seguir em frente. Numa batalha pela sobrevivencia, Lanzetta só sobrevive porque é o unico que não espera nada mais dos outros. Ele difere de muitos protagonistas dos outros filmes, mesmo os de Milão – são um pouco mais humanos, e consequentemente, o final para Lanzetta e para eles não é o mesmo. Há um certo fatalismo, e o futuro de Lanzetta deve ser tenebroso tambem, mas ele é um herói, e sua trajetória no filme termina com uma sinistra piada num “filme continua”.

Lanzetta estourando alguém em Il Boss (1973), de Fernando Di Leo

Fiz essa opção por falar sobre o As Presas, filme de horror de Antoine Cordier, porque conclui que os melhores filmes da Mostra, como The Day He Arrives, Sorelle Mai, As Canções, já tem a sua cobertura, devo fazer alguns comentários em breve sobre outro filmaço, o Histórias da Insonia, em outro veículo. Mas queria registrar este filme, que passou ali sem chamar a atenção, que causou revolta alias, pessoas sairam muito putas, falando que aquilo era ridículo. Extremamente comum, vindo de mostrófilos que não veem filmes inteiros, e que sempre esperam a mesma coisa de tudo que veem.

La Traque (2011), de Antoine Cordier

Não se trata de um filme dos mais fortes na sua completude. Mas ele tem momentos grandes, e estruturalmente mesmo os erros soam interessantes. A principal dificuldade, é que em meio ao horror no mato, ele parte para uma trama familiar delicada. Falta um tanto de mão com as sutilezas e brigas que ficam mais no campo externo ao filme, e nem sempre se tem o impacto que ele propõe. Mas o filme ão é apenas isso, e aquilo que fez a sala testemunhar a maior retirada que vi este ano (excedendo Mekas), é que é um filme duro, escuro, desagradável. O clima é forte, sempre que se foca mais na ação e menos no drama. Desconheço o cineasta, mas parece um caso de pouco experiencia. Pela forma como o filme cresce quando se desvencilha de sua armadilha. Tem uma cena incrível, em que o cara fica muito tempo soterrado em baixo de um porco selvagem. Um solo contaminado faz os porcos partirem como loucos contra tudo, e uma familia que sai pra caçar fica no meio disso numa noite. Fugindo em desespero, ele encontra apenas um dos porcos, já morto, como saída. Ele fica soterrado ensanguentado, sem respirar, tendo que lidar com os outros porcos, que o caçam, farejando seu cheiro, e seguindo seus pequenos movimentos. Ele só escapa porque fica tão imundo com o sangue do outro porco, que ele já não era mais humano para os outros. Sao desses momentos puro sangue, porrada, que o filme ganha respeito e o destaque. Não e um filme muito bom, mas tem muita cena boa. Merece ser visto fora da correria, smepre indo contra os filmes.

Arquitetei entrevistar o Don Coscarelli, no entanto infelizmente ele está finalizando um filme novo e mesmo se esforçando não pode ceder a entrevista nesse exato momento. Como esperei muito, resolvi ir em frente e mandar logo o post sobre os dois primeiros Phantasmas. Vi pela primeira vez esses filmes em VHS, muito tempo atrás, e uma das coisas mais marcantes era o aspecto road movie, batalha eterna que ele tem. Os personagens pelos filmes (são quatro) estão sempre numa mesma pegada, mesma corrida, emendando a perseguição ao temido ser do outro mundo, o Tall Man. Desta vez me apeguei a outras coisas, como o fato do filme ter um espirito folkiano, digamos. Do mundo pequeno, simples. São nessas cidadezinhas que o Tall Man faz sua passagem, sempre iguais, comunidades conservadoras, atropeladas pelos seres que o Tall Man faz.Pra quem não conhece a saga, nunca viu nada, o filme acompanha dois irmãos que vivem sozinhos, orfãos, quando um deles começa a ver que acontecem atividades estranhas acompanando um enterro, e descobrem que pelos cemitérios das cidadezinhas, o bando comandado pelo Tall Man, um ser de outra dimensão que transforma vivos e mortos em seres do seu mundo, implantam uma passagem pra outro mundo e vão destruindo sempre as populações. O Tall Man se alimenta do medo. E é incrívrel como o Mike, ainda pequeno no primeiro filme, não tem medo de nada. Essa noção de coragem explica bem o porque desse universo funcionar, os personagens nunca ßão desenvolvidos no campo mais profundo, eles são aquilo que fazem, são simples, diretos, definidos por sua coragem e generosidade. O trio é formado ainda com o Reggie, o cara mais legal do mundo. Enquanto o irmão mais velho fica no primeiro filme, num fim confuso, questionável, o Mike cresce, e volta no segundo como James LeGros, provavelmente num movimento dos produtores, nas demais continuações voltamos ao ator do original. O Mike original mistura melhor a vulnerabilidade com a pegada do personagem. O Legros faz o tipo galã, e fica meio esquisito, mas segura. O segundo é o pior pra mim mas essencialmente faz a s´rie ser o que ela é, um filme de constante perseguição, na estrada, em movimento. O Coscarelli não é nenhum genio, mas sabe construir as coisas a partir do pouco, das situações sempre menores, mas tem um característica que acho foda, a sensibilidade pra criar cenas marcantes. O Reggie tem uma incrível, que é uma coisa meio boba, sem maiores explicações. Ele toca a guiatarra, e do nada tem um momento de premonição, ele sente que tocando algo, que estava na sua guitarra, ele está se conectando com alguma coisa. É uma cena simples, mas forte, retomada no fim do filme, quando ele fecha os portais usando o mesmo toque na hastes como na sua guitarra. São momentos tão simples, sem formar um grande filme, mas um filme forte. E o ritmo, sempre progressivo, operário, sem exagero, sem cortes rápidos, no ritmo do caminhar. A trilha de pequenos acordes, segue o espirito operário, em marcha – evidentemente inspirada em Carpenter. Acho muito legal, e aos ratos do VHS que nucna tiveram a chance de ver, vale a pena, o filme tme estilo.

Como eu tinha falado noutro post, esse ano o Indie teve muita coisa interessante. Os motivos, são obvios. Entre os melhores do Bela Tarr que vi, não vejo o que eu poderia acrescentar ao emporeirado universo em que seus filmes passam, que os textos escritos em blogs por outros, como o Sérgio, dão conta. Fantasmas. CineSesc tinha muitos.

Entre os filmes da Claire Denis, vi mais. E realmente estão mais fortes pra mim, há um tanto de conflito em cena, na maioria do tempo. Acho que discordo do povo em geral, que parece ter ido mais a loucura com revisão de Bom Trabalho. Acho um filme mais importante dela, do que necessariamente um dos melhores. Ele se encaixa com uma beleza ao discurso critico. Em cena, sempre matéria, isso é evidente. Ele me lembro o Fassbinder, em alguns momentos, sei lá porque, talvez pela relação dos homens, que querem se devorar, acho que no Fassbinder a tensão entre os homens tá presente assim, embora a estética não se aproxime. Eu vi o Querelle há um tempão, foi dos primeiros, nem curto, mas pensei em alguns momentos nele. Enfim, essencial. Cineaste du notre temp com o Rivette ´um material realmente foda, basicamente andando, andando, com Rivette e Daney, os amigos que falam frances deram a notícia que as legendas eram medonhas, o que deve ter criado um efeito bizarro de fazer muita gente ter saído com ideias erradas. Por isso, não há porque arriscar falar do filme, pra além da evidente beleza dos velhinhos. O que mais me pegou foi esse filme do começo dela, urbano, menos pesado. Diria que ele seria um filme menor desses que todos conseguem identifica-lo. Mas eu discordo. Acho um filme foda. Esse tipo de filmes sobre imigrantes e os desacordos que eles encontram em Paris, surgiram algumas vezes depois desse. Pelo menos um é bem melhor que esse, mas ela já era assombrosa nesse tipo de dramaturgia. O mundo cai sob os personagens, mas eles teimam em sobreviver, persistir. Ela mostra o imperfeito concreto, a moral jamais consegue ser diferenciado da postura em cena dos personagens. Apesar de tudo que acontece, os personagens são pedras. Impassíveis. A parada é da crueldade mesmo.

(como era nova e como era gostosa a Golubeva, faltou tirar a roupa)

Encontrei esse filme meio sem qualquer tipo de comentário que notoriesasse – trata-se do mais comum filme B dos naso 30. E pra quem tem interesse por filmes B, é sempre muito legal ter contato com material do que se fazia nesse tipo de submundo naquele momento. The Hidden Hand – não sei se houve lançamento na época em terras brasileiras – faz o tipo comédia macabra. imagine o tipo de coisa que o Ivan Cardoso viu a vida toda e pirou. Esse filme é um deles. Sem maiores arroubos de genialidade, vemos a mais perfeita obra sem medo de ser minima. Um assassino louco foge, encontra-se com a irmã, que se aproveita de sua volta para se vingar de seus parentes, num universo onde a única pessoa com escrúpulos é uma donzela, que não tem sangue da familia. Nesse meio rápido, sem maiores desenvolvimentos, o filme dura menos de 70 minutos. Curto, grosso, tosco. Não é uma maravilha do submundo, mas diverte bem. Seus maiores méritos são mesmo o do objetivismo, a escola maior do filme B.

Satantango (1994), de Bela Tarr

Tem sido dias corridos, entre o indie e filmes vistos por aqui. Mas fica difícil ignorar essa sessão de Satantango no CineSesc. Mais um ponto pro Indie, que já estabeleceu-se como o melhor festival para retrospectivas do país. Além de oferecer um cinema maior, uma tela melhor, e levando a sério o fato de ter apoio público, sendo todo gratuito, o Indie já trouxe de tudo, cinematografias variadas, mas sempre tem algo a ser visto. A mostra do Bela Tarr interessa muito, pela raridade e pela descoberta. Esse filme, mais ainda, é como uma lenda para muita gente mais nova, um mito. Claro que o status mitíco atrapalha um tanto na expectativa, mas para quem conhece filmes do Bela Tarr, e eu vi Werckmeister Harmonies e o Homem de Londres antes, além doutros no próprio indie, o filme é bem tranqüilo, digo que não nem de perto o mais difícil dos filmes dele. O fato é que ser longo pode impedir alguém de assistir em uma sentada, mas dramaturgicamente é um filme sem arroubos táo radicais assim. Isso foi discutido depois do filmes e nos dias seguintes pelo pessoal que tem estado por lá, e de fato é meio complicado precisar o radicalismo – como pode se dizer que um filme de sete horas não possui radicalismo, sendo esse tempo todo dividido em cento e poucos planos. Digo então que narrativamente ele é bem simples, a parte a circularidade, é um filme que mais estica os seus momentos pra dar peso a moralidade da sua história, do que um filme que opte por fragmentar, ou simplesmente ser um grande breu narrativo. Se considerarmos o Gerry, o primeiro filme do Van Sant a ser diretamente ligado ao Bela Tarr, creditado pelo próprio, há bem menos ali pra se digerir, a presença da cena por ela mesma é bem mais forte. Mas além de planos longos, travellings, steadycam que segue os personagens pelo espaço meticulosamente estabelecido e filmado, o que mais me lembrou os filmes do Van Sant é a questão da circularidade. Efeito constante no Elefante, onde sempre caminhamos em rodeio, cruzando os personagens, cruzando os instantes sobre outros pov, e no Satantango isso é constante, mas diluído, na medida que o filme tem capítulos. Nunca pensei que isso no Elefante fosse algo confuso, então creio que a diferença de tratamento não expressa tanta coisa assim, mas acho que no Elefante tem um efeito mais forte, mesmo porque um fime mais compacto – no Satantango tem muito mais coisa pesando ao longo de suas horas. É um filme doloroso, quase assombroso. Tinha a impressão durante todo o filme que o personagem que todos os habitantes da vila temem, era algum ser fantástico, e de certa forma, náo deixa de ser, com sua postura em cena.

Queria registrar que revi From Beyond, e que é o mais delicioso das adaptaçóes do Lovecraft, um filme B que funciona na concepçáo do termo, direto, grosseiro, bem montado, sacana, tosco e louco, tudo em bom estilo, Stuart Gordon adapta bem demais os textos que ele se propõe, infelizmente isso faz com que quando lida com texto horrendo, vire babaquice.

Enfim assisti a esses dois filmes de canibal do período classico do genero. Jungle Holocaust é pioneiro, um dos primeiros a lidar com as imagens que viriam a ser copiadas pelos outros filmes, como de praxe na Itália. Imagens-símbolo existem em todas as cinematografias, mas a Itália copia num level diferente. Mas é injusto e irreal dizer, como muitos, que se viu um deles, basta. Primeiro, porque os filmes merecem ser vistos, mas porque o talento se apresenta em dose triplicada no trabalho do Deodato. Vi uns filmes do Umberto Lenzi de outros generos, a maioria era giallo, e já nao tinha visto nada muito elaborado. Mas quando se pega o Eaten Alive! e coloca de front ao Jungle Holocaust, a diferença assusta. Deodato tem personalidade, o filme tem peso, as cenas tem ritmo, tem emoção, o filme tem realização. Densidade, presença – longe de dizer que se trata de um filme brilhante. Mas é um filme. O Eaten Alive! é divertido e tal, mas é completamente sem corpo. Tudo parece corrido, jogado, uma aventurinha que por oportunidade passa-se na selva. Náo fosse o talento do ator, o mesmo Robert Kerman que comanda o Canibal Holocausto, o filme dificilmente teria qualquer interesse. Afora que abusa muito mais dos vicios, tentando juntar aos montes as cenas de tortura aos animais, cobras comendo tudo que é animal, tem até briga de bicho. As cenas de canibalismo são pouco elaboradas, não tem tensão. Os protagonistas são simpáticos, até demais. Chega a ser fácil a sensação de que eles merecem sobreviver. O grande mérito estrutural do Canibal Holocausto é o reverso da narrativa, j á que se simpatiza com o primeiro cara, que chega a selva e consegue se misturar, e depois se ve o seu oposto, com a equipe de filmagem. Ali, se cria uma zona de suspense – com eles qualquer coisa pode acontecer, inclusive o que acontece. Nesse filme é obvio que eles escapam. O Jungle tem mais suspense, e acompanha um cara que rapidamente se isola dos outros. O trabalho ali é de outro estilo. Sobrevivencia na selva, o cara fica preso por um grupo que não se mostra canibal, enjaulado, descobre seria usado como isca para caças, faminto. No sadismo evidente do Deodato, dá pra imaginar até Werner Herzog orquestrando o filme. A diferença é que Herzog respeita muito os mistérios e o mundo desses lugares, já o Deodato usa e abusa, deturpando e massacrando as coisas.

Essa lógica de filme sobrevivencia é legal, e se encaixa a ideia de luagr inexplorado. Tem cenas grosseiras, coisas bobas pra estabelecer o genero, mas na maioria do tempo o filme realmente sofre com o personagem, e leva a serio a sua proposta. A diferença de talento e de criatividade Deodato/Lenzi são intraduzíveis. Diria que o outro existe para quem quer ver mais um filme de canibal e acabou, tudo tá pra constar, a aventura náo tem peso, e se voce suporta ver animais se degladiando, conseguirá ver um filme de canibal. Nem acho que no Jungle ele vá tão afundo quanto possivel, na tortura pessoal do personagem, mas a coisa é sofrida, a ponto dos animais quase serem um peso menor no filme. O joelho do parceiro, os cogumelos, crocodilo, pancadaria, aves, fome. Tem muita coisas de fato em cena. O Eaten Alive! nem é ruim, mas não tem muito interessem em existir.

Sempre gostei muito do David Gordon Green, via nele uma espécie de qualidade rara, um cinema quase caipira. O cara sabia como lidar com referencias, misturava conceito sem ser um mero clonista. Lidava com engrenagens diversificadas. Aventura juvenil campestre, filme de relacionamento, seus filmes tinham um tempo único para os persongens. O lugar onde vivem, física e internamente, tinha um lugar muito importante aos filmes. Eram quase filmes poeira sem precisar de carros voando. Nada disso mudou, mas acho que esse filme me deixou com um pouco de receio por parecer que se o talento de criar universos, tempo de cena, beleza de imagens, tudo ainda está lá, eu temi um repeteco meio acomodado demais. Outra que falo, no começo seus filmes eram como um cantor de raíz, eram duros, agora eu diria que sào no máximo um alt country. Um bom, mas.

 

Mas vou falar sobre o Your Highness, que não merece ser chamado preguiçoso, muito menos de fraco. Achei que era mais um filme de maconheiro, e Pineapple não tem como ser sucedido nisso. Mas não tem muito disso, no sentido direto, ˜e um filme com imaginario cannabístico, outra pegada. Acho que ele parece que poderia ser melhor do que termina sendo porque tem alguns momentos animais. Se o Seth Rogen era roteirista no Pineapple, o Danny McBride faz o mesmo aqui, e realmente tem o poder e a cabeça do cara o filme. Talvez por ele ser um cara legal é que a coisa seja divertida, mas náo classicassa. O Pineapple era sobre o ato de fumar, o compartilhsmrnto, o sentimento; Your Highness ela não precisa ser vista, é sobre ideias que a maconha te dá. Tipo uma aventura com dragões. E minotauro. Ele está na melhor cena do filme, e o seu pinto nas melhores. Sem zoeira. O David Gordon Green é muito melhor que esse filme, mas nada que não permita ele ser bom por si.

Revi após algum tempo esse filme tão foda do Fulci. Sempre foi um dos meus preferidos de todo o mundo, um filme que é a essência do cinema fantástico. O inferno que surge do porão do hotel em Nova Orleans não tem sua imagem-reflexo no quadro visto em cena desde o começo num acaso. É pura artes plásticas. Em sua faceta mais grotesca, cada entranha aberto é um passo para o belíssimo fim. Sem mais para onde ir, sem forças para relutar. Nossos protagonistas mergulham num mundo novo, muito mais que inferno, vemos a declaração de amor ao grotesco. Nesse instante, o fantástico fez sentido.

No começo dos anos 70 muitos filmes apocalípticos lidavam com formas de zumbi, mas não eram assim necessariamentef filmes de. Assisti a esse belo filme de Willard Huyck, um dos parceirões de George Lucas, aqui no Brasil lançado, pelo menos nas locadoras como Zumbis do Mal. Ele tem um tanto de novos cinemas, normal na época, embora seja um filme bem de terror mesmo. Tem tempo dilatados, respiros, gore, modelos drogadas, um clima de Blow-Up torto. O melhor do filme é cidade, sinistra, captada e mostrada como se o lugar onde nada vive, como define um perdido no começo do filme. O filme tem um senso de tempo curiosissimo, consegue ser muito tenso e ao mesmo tempo lento. No filme uma mulher vai para uma cidade em busca de uma pessoa e encontra um lugar devastado e esvaziado. Numa profecia antiga, as pessoas comem os outros e com isso convertem-se em um bando de zumbis que louvam um sujeito que um dia teria existido, um líder animalesco. Enfim, um misto de crença com mortos-vivos. A forma de matar os que se transformam náo tem nada a ver com a cabeça, eles precisam ser queimados. Mal existem personagens, o que funciona muito bem. O ideal é a sensação de nada, da ausência de energia. Acho que as seqüências do fim, que dão uma ideia de insanidade a personagem, até tem impacto, mas esvaziam um pouco a tensáo do resto.

Update: tinha escrito isso pelo ipad, o resultado foi que o corretor automático dele é muito louco, erros cavalares. Assisti um doc que vem com o filme, bem legal, onde eles contam sobre o processo do filme, do momento histórico. Confirmam O previsto, sobre a matriz das imagens serem de cinema europeu. O mais legal ê sobre o fim, eles nunca filmaram, sem dinheiro os produtores inventaram com o que tinham, assim essa parte da insanidade que eu falei, nem deveria existir. É um filme sem maiores sentidos, mesmo. É da plena existência do que está em cena que ele brilha.

Hung

Antes de entrar nesse assunto, queria recomendar por aqui o post do Perrone sobre um Django genérico, mais ainda que o Viva Django! Isso tudo porque além de ter uma relação com o filme do Ferdinando Baldi, esse filme que ele comentou é, não oficialmente, a estreia do Enzo Castellari a frente de um filme. Há dúvidas sobre o que ele dirigiu, mas que ele esteve comandando, esteve. E é um dos caras mais fodas do cinema.

ooo

Então. Hung é uma série, como alguns devem saber, que como muitas dessas séries da HBO vem com ótima produção e tudo mais. São sempre curiosas. Nem todas são boas, mas algumas são simplesmente o que de melhor se vê na TV e até no cinema (casos como de Sopranos, The Wire, Oz). Não é uma série desse nível de grandeza, mas ela é muito legal. E vence uma barreira francamente difícil pra mim. A do cinismo. Seus primeiros episódios são um pouco duros nesse sentido, ainda muito ligados a imagem do Alexander Payne, que é um dos produtores, mas acho que estamos num terreno bem diferente. Vejo os personagens em relação a série de uma maneira mais terna, mesmo que estejam sempre no limite do patético. O patético é legal, Ajuda um bom elenco, pra levar os fãs de filmes B a realmente se interessarem: o protagonista é nosso melhor astro recente, Thomas Jane, e seu melhor amigo é, o mito, Gregg Henry. Sim, o dublê de corpo em pessoa. Acompanhamos um ex astro dos esportes até a NCAA, cuja carreira não foi pra frente, e que vive mediocremente treinando o time da escola. Abandonado pela esposa, que o troca por um babaca, ele perde até mesmo a presença dos filhos, quando sua casa cai em chamas. Vivendo numa barraca, a única coisa que lhe resta é o seu pinto gigante. Pois é. Tinha tudo pra ser uma babaquice, ou não, e não é. Ainda que as vezes a coisa pareça pegar pesado demais com o universo dele, aqui as coisas tem vida. Tem sentido. Estilo. Sua relação com os personagens ao seu redor é complicada, mas pelo lado bom. Nada é simples, ainda que na primeira temporada, a personagem da esposa que se mandou com o babaca seja fraco, porque não chega a ter o tempo que precisa. O que não o torna babaca, é que a questão da sociedade americana em ruínas é bem menos importante, do que a questão dos personagens em si – eles são eles, são verdadeiramente importantes, sensíveis, postos a questão, a babaquice de comentário social nunca é o foco. Eles simplesmente estão nesse ambiente, mas esse ambiente não é o que a série se interessa de fato, mas sim é as pessoas ali. Acho impossível não curtir o Thomas Jane, um cara legal com dificuldade de ser legal, que os filhos questionam por não acreditar que ele possa ser um cara legal mesmo por ter sido um atletia babaca da escola, que a amiga pseudopoeta e agora cafetona acha que é misogino por pensar duas vezes antes de transar com uma senhora teoricamente não atraente, e que ainda assim, é puro afeto. A dick and a dream, diria.

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Vi um filme qu enão sei se é bom, acho que dificilmente é. Mas é interessante, no meio de tanto filme igual. É talentoso, bastante estiloso. É preguiçoso, ou pelo menos, pouco criativo, nos rumos que dá a trama do filme, que é uma invetigação dentro de uma escola de alunos ricos, mas acho que da pra dizer adivinhar muito cedo o que acontece em cena, é pouco importante num filme cujo a forma é mais importante. Mas não se empolguem, é um filme bem bobo. Talvez um bobo legal. Chama The Assassination of a High School President.

Gosto muitos de alguns trabalhos do Jon Favreau, em especial a sua parceria com Vince Vaughn. Pra quem não sabe, eles são melhores amigos, e realizaram juntos alguns filmes,h ora apenas escrevendo e atuando, hora dirigindo e produzindo. Enfim. O mais conhecido, até então, é o Swingers, um filme bastante comemorado nos anos noventa. É o filme que lançou para o cinema americano Doug Liman. É um bom, em especial pela química entre a depressão e histeria, que os dois possuem. Gosto do Liman, também, apesar de nem sempre fazer bons filmes. O segundo filme da parceria dos amigos foi Made, um filme pequeno, que Favreau dirigiu antes de se tornar um cineasta relevante, digamos, financeiramente. É um filme pequeno, mas intimo entre eles. É bem decadente. Acho ótimo. Esse Couples Retreat é a última parte, é o primeiro destes filmes que vê eles como pessoas bem sucedidas de fato, já que hoje Favreau goza de uma carreira milionária como cineasta e pode atuar com mais tranqüilidade em filmes onde é um coadjuvante de luxo. Enfim, eles tem outros filmes onde estão em cena, mas esses sãos os filmes onde a parceria criativa é a força de autoria por trás dos filmes. É evidente que são filmes diferentes em tom, em muitos momentos, por serem dirigidos por cineastas variados, o que faz desse o mais light, e o Made o mais tenebroso. Acho que se Favreau fosse o autor de todos eles, teríamos mais um tom dele, que dos outros filmes. Em todo caso, acho esse filme, o Couples Retreat, bom. O pior deles, mas ainda assim é um bom filme, acho que ele se perde um pouco em alguns momentos. Mas se formos retornar aos outros filmes, é comum esses problemas de estrutura. Não são brilhantes artesões, mas além de ótimos atores, eu vejo nessas parcerias algo muito forte, um sentimento bem claro de visão, ponto de vista. São filmes basicamente sobre impossibilidade de se ser feliz em conjunto, mas da falha miserável de se ser só. Parece piada, mas basta olhar que os personagens sempre procuram a felicidade em abandonar a vida entre amigos, mas acabam retornando para o seio da amizade – ou da família, agora que são mais velhos – porque simplesmente não é possível se existir só. O último trás ainda mais personagens, e uma inversão, que considero genial. Porque explora os atores, e porque questiona um pouco a persona na tela deles. O Jon Favreau, em Swingers, era o cara sério, em crise, enquanto Vince era o histérico, garotão; agora, mesmo que mais velho, a histeria mudou de lado, e o cara mais comum é o outro. Esse filme tem muitos personagens, e embora o casal do Jason Bateman é até melhor e mais curiosamente desenvolvido, especialmente que o do Jon Favreau, que depende dele, acho que há personagens demais, e por isso o filme fica meio disléxico. Mas é um bom filme, dirigido por Peter Billingsley, que produziou vários filmes, inclusive o Made. Ele é estreante, como todos eles foram. Acho que são filmes que tinham potencial de serem muito bons mesmo, mas que oferecem material suficiente para uma boa defesa, além de que o Couples, em particular, tem o Vaughn destruindo.

Viva Django, 1968. Terence Hill é o cara

Esquisitissimo esse filme de Ferdinando Baldi, um faroeste que como tantos explora o nome do mítico personagem de Sergio Corbucci, desta vez na pele por Terence Hill. A verdade é que não há muita relação, na maioria do tempo, o que torna o filme ainda mais misterioso. Não por ser um filme picareta – todos os filmes feitos ali praticamente eram picaretas. Afinal, o grande filme do Fulci é o Zombi, e bem, é exatamente a mesma coisa a respeito do filme do Romero. Mas não é isso que eu queria destacar. É que o filme é mesmo bizarro. Dramaturgicamente, não estamos em terrenos tão distantes do faroeste tradicional, que tantos cineastas bons e ruins praticaram, cheios de seus atores clássicos – George Eastman tem pouco tempo em cena mas não deve nada ao Terence Hill. Mas é enganoso – o filme tem uma relação com a estrutura dramática que foge da tradição. Mesmo que seja muito fácil entender quem são os outlaws pro bem e pro mal, o subtexto político e a lógica da lei do oeste perdido, tudo que sempre vimos nos filmes italianos em sua maioria a estutura é diferente.

O Django é quase um perdedor imortal. E um perdedor imortal, no caso, não aceita jamais perder, logo é um vencedor. Mas ao fim, ele não parece ter ganho nada, mesmo se vingando. No começo do filme ele recusa um trabalho por ser um cara pouco ambicioso e que prefere viver a sua vida sem sangue, é traído um milhão de vezes, vê todo mundo ao seu lado morrer, volta milagrosamente, organiza um bando de rejeitados, é traído mais uma vez, vê o bando morrer nas mãos de um deles, mas será que ele consegue vingança. Claro. A vingança é conseguida, o vilão cai no chão – mas não é nem muito exagerado. Contido. Especialmente para um faroeste, maneirista por existência, o cara só cai. O George Eastman, que faz o cara que pega o o emprego que Django não aceita, tem um final um pouco mais louco, numa cena fantástica. Django ateia fogo num saloon, e um tiroteiro insano se faz, com o lugar quase todo despedaçado. Mas ele não é o verdadeiro vilão. E meu ponto é, o Django de Terence Hill tem carisma de sobra, mas não tem o charme invencível de outros Djangos, Keoma, e afins. Ele é invencível, mas é meio esmaecido. Ele é sempre traído, e parece que sempre será, não tem malícia, ou tem e prefere acreditar em todos. Seu objetivo é sempre seguir o seu caminho. É um filme engenhoso na criatividade, porque bola reviravoltas e caminhos pra trama que se não é algo extremamente novo, é pouco comum. Depois de traído e deixado pra morrer, Django se torna um enforcador e salva as vitimas com um apetrecho que inventa, e faz com que todos pensem que eles morreram mas na verdade os junta num bando. Assim como ele, eles são dados como mortos pela justiça, até um enterro tiveram. Django vira quase um mágico, num truque enganando a todos – só que esse é um momento. Assim como há o momento da traição, há o momento do truque, e há o momento do roubo ao ouro. É um filme cheio de novas reviravoltas. A trama nunca segue num caminho único dramático, ele segue dando voltas. Django não retorna com o bando para o roubo que planejam interferir, pois sabem ser de uma valia para seus inimigos por lá – é preciso dizer que Django também não aceita que seu bando mate os caras que lhes traíram. Ele acredita que são inocentes, logo se saírem destruindo todos, se tornariam culpados. O Django do Terence Hill é pura filosofia. Ele fica porque tem que impedir mais um de ser morto pela justiça, esposa de um deles – ao ficar, ele não assiste ao marido dela trair o grupo, impor uma mudança de planos. Enquanto fica e salva ela, Garcia, o marido dela, mata todo mundo após o roubo. É isso aí. E lá, para salva-la, Django é pego, e descoberto.

Já está claro que o Django tem uma inocência bizarra para um personagem de faroeste, que ele só se ferra o filme todo, sem perder sua integridade, e mesmo assim ainda a marginalidade. Mas o filme guarda um dos seus momentos mais únicos: o espancamento de Django. Ao ser pego, vemos uma cena enorme, sem musica e câmeras afetadas. Um bando inteiro espanca, brutalmente nosso herói. A cena é muito mais pesada que a da traição, e mesmo a da morte do vilão. Antes de saber que o cara que lidera o grupo é o cara que assumiu o emprego que ele recusou, e que tudo aquilo era na verdade obra do cara que matou a sua família – porrada. É uma cena relativamente longa, e assustadoramente direta para um filme maneirista. E veja bem, o filme não trai o movimento, a diversas cenas com show de zooms pra lá e pra cá, e toda a fantasia que sempre nos alegra e diverte.´É que este não é um filme comum. E esse Django picareta, também não é um cara comum. Mesmo para um Django.

Voltando a narrativa, conclui que o melhor jeito de explicar é contar, o Django descobre que cara por trás ali é mesmo o cara que matou sua família, e tal. A esposa que ele salvou e o velhinho com quem dialogava, o ajudam, e ele escapa. Enquanto isso, o traído do bando dele, já estava voltando com o dinheiro, e a morte de todos contra si. Mas ele só reencontraria ele depois. Antes, ele organiza com explosivos uma cena fantástica, bota um lugar abaixo. O vilão escapa, mas o líder do bando que trabalhava pra ele, o George Eastman, tem uma queda cheia de requintes. O olhar do Django pra ele é tão estranho, que parece mesmo que ele cogita salva-lo. Sério, o Terence Hill tem um olhar muito curioso. Dali ele segue caminhando seu caminho, é novamente atacado por mais caras que o vilão manda, e enfim se encontra com o seu novo traidor. O cara que matou todo mundo que ele impediu ops enforcamentos. Mas o Django não perde, e o duelo é rápido, e logo ele mais uma vez deve sua vida para nosso vingador. O mais curioso é que não parece que ele o mantém vivo apenas porque ele é útil, mas porque ele realmente, mesmo depois de tudo, não acha que ele deve morrer, a não ser que ele o force fazer isso. Django bota então mais um plano, usando a família pobre que queria ser rica e que ele salvou algumas vezes, fazendo seu traidor maior vir para ele, mas não sai como se espera. Mais uma traição, mais um momento de inocência. Ele trazia diversos caras com ele, que o esperavam distante. E então, Django vira Django, se cansa, puxa a metralhadora, e pronto. Ninguem fica em pé, apenas ele. É um filme tão pouco usual, que chego a duvidar que quando Django diz que só lhe resta o ódio, isso seja mesmo o que ele sente – não é o que parece. O Django de Terence Hill é de uma sensibilidade bizarra, e o que Ferdinando Baldi e ele conseguem nesse filme, é mesmo brilhante: um herói vingador verdadeiramente distinto.

***

Aquela mostra do ano passado, que esteve no CCBB, exibiu o filme em película. Eu perdi, e quem não viu, perdeu também. Era uma oportunidade bem pouco usual. O filme saiu no Brasil, mas é desses DVDs que dão trabalho, por serem de distribuidoras menores. Mas vale a dica, comprem ou baixem.

Craven

Há um tempo eu vi A Hora do Pesadelo, o primeiro, sob os olhares mais atuais. Não me lembrava de muita coisa. Principalmente que se tratava em absoluto de um filme-sonho, mesmo. Não há fidelidade com a realidade, com o mundo, em sua atmosfera. Na verdade, há nos sentimentos absolutamente brutos dos personagens. O medo é o que liga esse universo fantástico com o nosso mundo. E só ele. É talvez da ideia própria da política em torno do insano rejeitado pela sociedade, queimado vivo, retornando para amedrontar os jovens em seus momentos mais indefesos – a imaginação e o sonho. O que ele reflete, em si, é um sentimento bem real de indefesa. Não existe saída, mesmo que a Heather tente burlar e dialogar com Freddy dentro do seu mundo. O medo é insolúvel, e a razão não vence a imaginação.

Eu e Chiko não temos escrevido por muitos motivos, o dele o do problema no computador, o meu porque estou tentando resolver uma ideia que tive pro blog, e isso foi adiando. No intervalo de Brasil e Holanda, com todos achando que a vitória de Dunga seria inevitável, resolvi gravar a gente vendo, posicionando a câmera numa posição que permitisse todos serem vistos. Como num reality show, ninguém esquece que a câmera está, mas é preciso dizer que o Chiko é performático assim sem ela. O resultado é muito massa. Claro que pros desavisados, que não sabem o quanto odiamos o Dunga, pode ser assustador. O fim é surpreendente.

(lembrando que no vimeo você só pode ver em HD no site dele, é só clicar dentro)

Handanovic (Eslovenia)

Lahm (Alemanha)
Von Bergen (Suiça)
John Terry (Inglaterra)
Salcido (México)

Bradley (Estados Unidos)
Schweinsteiger (Alemanha)
Iniesta (Espanha)

Forlan (Uruguai)

Messi (Argentina)
Villa (Espanha)

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