DENTE CANINO é um filme grego. Mas não se enganem: é o pior filme de todos os tempos. A VILA refeito por um Haneke da vida, só que um sem nenhum talento. É uma parada surreal: não há nada que salva ele de ser inacreditável de merda. Além de feio a beça, com a luz branca no limite, os quadros rigidos que só aumentam o nível de rigor da escória do que se assiste. Chama-lo de doentio seria dar um interesse ao filme. Ele é simplesmente ruim. Ruim demais. Cassetadas na cabeça, animais mortos, patetismo intolerável, e sai da sala. É preciso saber que as vezes, mesmo uma atitude que julgo problematizável – todo filme em alguma instância merece ser visto – deve ser tomada, vi demais até.
A realização improvisada do cinema pelo simples ato do realizar. A mise-en-scène a partir da própria moradia, o cenário conhecido do dia-a-dia, o fazer rápido pelo tédio do nunca fazer. Diálogos improvisados, figurino improvisado, cinema improvisado. A madrugada na qual a concepção é mais carnal do que cerebral.
E a recriação a partir do próprio material. Elementos abandonados, a reinvenção a partir da própria fragilidade realizada, gerando novas, mas como um passo à frente pela busca. O prazer do criar.
Realização por Allan Peterson, Guilherme Martins e Renan Fogaça.
Montagem e adaptação por Allan Peterson e Renan Fogaça.
Publicado em Cinema, Vídeos | Tagged Allan Peterson, Contos da Fofolândia, Fofolândia, Guilherme Martins, Renan Fogaça | 3 Comentários »
OK, eu e Wata estavamos de saco cheio. Choveu o dia todo, vimos outra derrota, o São Paulo está ruim. Jogamos umas partidas de Winning, duelos incríveis: na primeira, o Wata me destruiu, fez quatro a zero com o Boca no River, me permitindo apenas uma reação leve na volta, 3 à 2. Depois, jogamos outra vez, São Paulo e Sporting. Na primeira, 3 à 1, Morumbi cheio. Hernanes destruiu num gol incrível. Na volta, apesar do pênalti não marcado em Washington, vitória dele, mas com Rogério obrigando nosso querido japonês a se acabar no chão, tacando o controle. Foram as três defesas mais bizarras, que um Winning proporcionou – simplesmente era pra eu vencer na soma dos resultados. 4 a 3 agregado.
Quatro latas de cerveja mais tarde, cada um já estava mais afim de ir dormir que o outro, e o Wata só esperava a chuva. Foi então que surgiu em nossa frente, Telecine Action. Colocamos pra enrolar. Lá estava Os Segredos de Emanuelle. Mas não era qualquer filme. Assistimos, do começo ao fim, chocados. Brisseau estava li, firme e forte. É o filme mais radical que vi em tempos, deixa quase tudo que se vê nos festivais no chão. Vestida para a noite, uma moça se debruça sobre a mesa de sinuca, deixando a saia no limite do esconderijo, e ali surge um taco de sinuca, que vai levantando lentamente sua saia, e mais tarde, fazendo os movimentos lentos de penetração. A câmera então, nos devolve nosso duplo em cena, Emanuelle, assistindo a tudo, perplexa. A música, incrível, o som do filme é absurdo. Adultério, diz um psiquiatra fajuto. Uma banda de rock, e então a montagem surge, já não sabemos se a banda participa de um bacanal, porque um plano nos leva a eles novamente sem cortes, num plano seqüência surrealista.
Luis Buñuel, aonde está você?
A montagem desse filme é do tipo nunca se saberá o que vem depois. Pode ser um monge budista, uma mulher se masturbando, a África, o navio (Querelle? Só pode). As cenas de sexo as vezes surgem de um plano para outro, não respondem a um movimento apenas. Emanuelle quer saber quem é ela. Um sub-Freud tenta falar uma bobagem qualquer. O contraplano é automático: a própria Emanuelle, anos depois, e um velho filosofo, comentam. “A matéria do pensamento”, diz ele. E tome novas viagens.
Não estamos jamais no chão. Tudo é lúdico. Nada é uma alegoria barata, para além da sedução em si. Mais que a velha idéia emanuellista – todas as mulheres merecem o prazer – esse filme defende a beleza do prazer por si. Nada é vulgar, apenas pela vulgaridade. É tudo menos pornográfico.
O avião desce em Bagoc, e nós somos recebidos. É então que surgem planos da cidade, como que filmados por Apichatpong. Os personagens somem. Não mais aparecem, de forma alguma: Bagoc está lá, e só ela. Fechamos com uma paisagem, que revela um falo. E apenas isso.
Quase não colocamos pra fora as coisas que o filme merecia, porque ele realmente te põe calado. Ficamos duas horas falando dele. A cada momento algo novo. O som, os planos, Monges, frases, filosofia. Esse cara TINHA que ser vanguardista.
Watanabe fez a lição e me mandou isso.
“He studied philosophy, was attracted by the Nouvelle Vague and started in the film business as Claude Chabrol’s assistant in 1962.” (!)
As coisas enfim começam a fazer sentido. Mas elas se acomodar, jamais. Francis LEROI. Esse é o nome, a vanguarda que subvertou o mais vazio dos gêneros.

Emmanuelle. Pronta para tudo. Inclusive para amar
Publicado em Cinema | Deixar um comentário »
(Por Cleber Eduardo, em sua estreia como colaborador do blog)
Os melhores e maiores momentos de uma arte equivalem aos melhores e maiores momentos de qualquer arte.

A Queda da Casa de Usher
Uma sequência magistral de Jean Epstein em A Queda da Casa de Usher ou outra de Tempestade, filmes dos anos 20 e 40, o primeiro na cena forte de experimentos visuais-sensoriais na França, o segundo já banhado de experiências poéticas não sem algum realismo, são proporcionais aos grandes momentos de Manet no século 19.

Por que Epstein e Manet? Poderiam ser outros, mas assumamos nossos lugares, nem que, para assumir, tenhamos de arbitrar.
E para arbitrar, por mais que haja regras, haverá, para além delas, um entendimento do jogo.
E um entendimento passa por processos que não cabem a nós investigarmos em seus meandros. Cabe expressá-los, com todos as limitações, mas também com convicção.
Epstein e Manet nos colocam em um lugar que não é mais o lugar das evidências. O que há de grande e epifânico neles, porque são epifânicos, estão na relação com a percepção, não somente em procedimentos.
Não se trata apenas de usar uma câmera lenta aqui, de informalizar um rosto e colocá-lo na direção das bordas, não se trata de uma técnica enfim, mas de uma expressão geradora de efeitos.
E os efeitos, por mais que sejam pessoais, não surgem do nada. Eles surgem a partir de evidências. São frutos de uma relação.

Esses grandes momentos epifânicos da imagem, seja ela em movimento estilizado com poesia, seja ela uma poesia de movimento estático, podem ser encontrados em Diego, não o Velasquez, nem o Rivera, mas aquele do Juventus, que não é o da Javari, mas o do Delle Alpi, em Turim.
Por que Diego e não Kaká, e não Cristiano Ronaldo, e não sei mais qual artista da bola? Por que precisamos arbitrar e, quando Diego pega na bola, levanta a cabeça e conduz o ritmo da obra (o jogo), vendo o fora de quadro, ainda dentro do campo, não sem usar a câmera lenta aqui e a aceleração ali, podemos ver também Epstein e Manet em seus momentos epifânicos
Esses momentos são efeitos a partir de suas jogadas, mas não são as jogadas e, sim, as jogadas em relação à nossa visão. Diego não parece estar nesse momento nos planos de Dunga. Assim como Epstein e Manet não parecem estar no campo de visão de muitos estudiosos e críticos.
Seria o caso de chamar alguns de cegos? Ou de apenas constatar que eles não estão em relação ás evidências, mas fechados em suas teorias sem evidência alguma? Cegos, portanto?
Não vou entrar nessa papagaiada de soltar rojões para Dunga porque agora a seleção não perde e porque está jogando “bem”. Futebol para mim é uma outra coisa. É Diego. Assim como arte para mim não tem a ver com funcionalidade e competência. Tem a ver com expressividade.

Não sei se com competência ou se com expressividade, o Juventus, esse o da Javari, da Mooca, parece estar a lembrar de sua expressão. Está entre oito pequenos paulistas em busca de uma vaga na Copa do Brasil no campeonato que não mobiliza uma linha nos jornais de São Paulo. Seria o caso de chamá-los de cegos?
Ora, o Juventus, o da Javari, é patrimônio da cidade. Deveria ter cobertura diária, aparecer nos programas de TV, ser chamado às mesas redondas. Não precisa jogar bem ou ganhar. Juventus é poesia macarrônica, de versos tortos, mas expressivos. É Candeias, Ody Fraga, versos na pedra, não sem inteligência, mas em nome de uma resistência, não de uma adaptação. É como o armazém dos espanhóis aqui da rua, na Aclimação, que vendem suco de uva verde, não soda limonada
Com competência e expressividade, Two Lovers, tradução Os Amantes, de James Gray, é outro exemplo de poesia expressiva. Não sei se de resistência, mas de proposição. Ha quem veja em suas imagens apenas ilustração de roteiro. Seria o caso de chamá-los de cegos por não estarem em relação com as evidências?. E elas pululam.
James Gray e Two Lovers são estímulos para quem deseja lidar com imagens. Epstein e Manet também. Diego e o Juventus, da Javari, por diferentes caminhos, não estão fora. Um estudante ou um amante de cinema e/ou pintura e/ou futebol, amante de arte, deveriam ver Epstein, Gray, Manet, Diego e o Juventus na Javari
Questão de relação com as evidências
Publicado em Cinema, Futebol | Tagged Cinema, Diego, Futebol, Javari, Jean Epstein, Juventus, Manet | Deixar um comentário »

Plano 1

Plano 2

Plano 3
Outro dia tivemos numa reunião do grupo uma questão séria: se um plano de um filme da Germaine Dulac, L’invitation au voyage, era uma subjetiva. A questão, colocada pelo Chiko e incentivada por Francis, apontava para que apesar do movimento ser semelhante ao de uma subjetiva, acompanhando o mover dos olhos, o mais importante por trás não batia: o eixo do olhar. Foi assim que comecei a pensar em uma questão bem séria, que são esses conceitos aplicados a termos técnicos. O que seria uma subjetiva, de fato, se o personagem existe somente enquanto objeto dramatúrgico. Todo plano é subjetivo ao olhar de quem posiciona ela – todos são subjetivos a câmera. Daí a questão de que aquele primeiro plano seria tão subjetivo quanto outro me parecer irrelevante, tal qual pensar que aquele não é – toda subjetiva é uma imagem como outra. O que conceitua ela oficialmente como uma subjetiva do personagem, é uma ligação ao seu olhar – só que isso é sempre uma questão de dramaturgia, não de formalismo puro, visado pela cineasta. Como naquele filme, o da Germaine Dulac o verdadeiro eixo é só o da câmera, ela é o centro do olhar, por tanto me parece claro que não ocorre subjetiva. Ou, só subjetiva. E justamente porque Dulac se posiciona por um conceito maior que todos citados, a ruptura. Assim, está lá para ser questionado mesmo, para se parecer com algo, a confusão e o fim das regras como o absoluto. Na busca da arte moderna, do cinema puro, o principal feito desta vanguarda é essa conquista dos eixos quebrados.

Em movimento 1

Em movimento 2

Em movimento 3

Plano 1

Plano 2

Plano 3

Plano 4
Outro ponto foi trazido pelo Cleber, analisando o que a câmera faz em relação a Joaquin Phoenix no filme do James Gray. Pauta que chegou, alias, ao texto da Cinética. Lá, a mente do personagem se junta a da imagem mesmo que ela não tente emular o seu olho, mas sim o seu inconsciente. Essa é uma visão que eu entendo e aceito com mais facilidade. Uma subjetiva que não precisa de eixo. É uma questão factual da imagem: ela segue o olhar dele, ao invés de imitar. Na janela, quando Gwyneth mostra os seios e vimos um recorte de espaço, assistimos mais uma vez um plano desse tipo. Ele não vê mais todo o espaço a sua frente, mas aquilo que ele realmente quer ver. O foco é a imagem. Por tanto, as subjetivas nem tão subjetivas, aqui, me parecem verdadeiras subjetivas – ainda são imagens subjetivas à câmera, mas conceitualmente são unidas ao olhar do personagem. Algo que não vejo no caso de cima.

Em movimento 1

Em movimento 2

Em movimento 3

Em movimento 4

Em movimento 5

Em movimento 6

Em movimento 7

Em movimento 8
E no terceiro ato, boto em cheque o que acabei de questionar. Com um filme do meu cineasta mais querido, proponho um curto com o meu conceito. Halloween trás nos seus primeiros minutos não só o mais brilhante surgimento da operação de steady-cam, mas um enorme plano seqüência sob o ponto de vista de Michael Myers, sobre quem não se sabe nada naquele ponto. Apenas que observa, ronda, prepara, e mata sua irmã. Mais que um ponto de vista, subjetivo à um personagem, que inclusive não fora construído – o que queima minha idéia de dramaturgia/estética do Two Lovers. Carpenter torna ela, câmera, e ele, personagem, único: possui braços, empunha uma faca, respira, VESTE. A câmera, então, é mais que cúmplice, voyeur, ela é a assassina. Um plano subjetivo, um plano objetivo…? Não vejo termo técnico, ou mesmo conceitual, que dê conta, de fato, dessa imagem.
Publicado em Cinema | 2 Comentários »
Para ouvir gratuitamente 30 segundos de cada faixa.

Disco épico
O encontro apenas como encontro não basta, e sim a fagulha que ele gera. A troca de energias, seja na similaridade, seja na total diferença. Um álbum ao vivo parte do registro da intensidade dessa exposição de uma seleção de canções para um público, o autor executando sem a segurança e estabilidade do estúdio e querendo ou não, a reação do próprio público. Reação essa que na maioria das vezes não me agrada, música foi e sempre será algo introspectivo para mim, talhado, esculpido, e não visceral. Tirando essa particularidade, e como tudo possui uma exceção, um encontro épico que me parece merecer uma reflexão mais aprofundada é o disco gravado após a série de shows que Chico Buarque e Maria Bethânia fizeram no Canecão, em 1975. Reflexão pessoal, e não crítica, de dimensionar o registro desse disco e o que aconteceu naquela noite.
A intensidade
O compositor que prefere não cantar contra a cantora que não compõe, mas morre no palco. A sutileza contra a força, o onírico contra o carnal, o aprumado contra o voraz, o homem e seu eu-feminino contra a mulher e seu eu-masculino, a dualidade, a energia que transpassa, o apolíneo e o dionisíaco. Uma absorção do oposto, uma entrega sem pudor, um palco que incendeia. Não uma parceria simples ou um encontro de acaso, Chico Buarque e Maria Bethânia naqueles shows foram um só, principalmente por serem opostos. Os indícios das energias, das músicas escolhidas e dos papéis que se invertem, se decalcam e simplesmente desaparecem me põe a repensar esse disco. A sensação da nudez de ambos, de Chico nunca ter sido tão Chico e ao mesmo tempo tão aberto para algo diferente, e Bethânia, nunca tão voraz simplesmente porque frente a frente com Chico sua voracidade aumenta sem limites. Papéis marcados, papéis que não existem, nudez pura. O bom moço tímido e genial contra a cantora lasciva e frenética, a Abelha-Rainha. Não à toa foram os últimos shows de “cadeira” que Chico Buarque fez encarando uma temporada. O desgaste é palpável a cada nota que se ouve. O momento passa, o registro fica. Sorte de quem escuta. E ainda mais de quem esteve lá.
O espetáculo
Tudo se inicia com Chico cantando “Olé, Olá”. Como se saudando seu público, Chico inicia sua exposição com o que ele é. A canção dos tempos de FAU, a inocência do compositor que não sabia que era compositor, e do homem que era menino. Chico não apenas expõe, ali Chico é. Até que entra Bethânia. A intensidade de sua voz já marca o que vem por ai, ela é o trem que passa e não existe mais volta. Sua voz é contida, porque tudo tem seu tempo. E o tempo ia parar pra ouvir. O pedido de espera porque algo maior está por vir.
(Chico) Não chore ainda não, que eu tenho a impressão
Que o samba vem aí
É um samba tão imenso que eu às vezes penso
Que o próprio tempo vai parar pra ouvir
Após, Bethânia se apresenta com “Sonho Impossível”. Mas ao contrário de Chico que se faz notar, Bethânia se faz sentir. A fagulha da explosão que vem por aí, a voz que a cada compasso ganha força. E o principal, marca que ali naquele momento o tempo não é tempo, a ditadura não é ditadura, e o ser humano não precisa agradecer por ter a chance de sentir. Que morram ali, mas viver é maior que isso. O palco como a vida, o instante que é vida. A certeza que viver é confrontar, e morrer por aquilo se precisar.
(Bethânia) E amanhã, se esse chão que eu beijei
For meu leito e perdão
Vou saber que valeu delirar
E morrer de paixão
Depois, o primeiro olho no olho. O apego ao instante e seu caráter passageiro, não bom ou ruim, apenas imutável na sua efemeridade. O se olhar polido, respeitoso. Paulinho da Viola e sua composição genial “Sinal Fechado”. A interpretação cordial de quem irá em seguida morrer de amores no palco. O saber que aqueles momentos nunca serão tão completos quanto deveriam.
(Chico) – Tanta coisa que eu tinha a dizer, mas eu sumi na poeira das ruas…
(Bethânia) – Eu também tenho algo a dizer, mas me foge à lembrança!
Após, “Sem Fantasia”. Chico e Bethânia viram amantes, Bethânia clama pela entrega do “menino”, Chico que se entrega independente de tudo. Aqui acontece o ápice de ambos, e até o fim nenhum será mais o mesmo. Bethânia clama por seu menino vadio, clama pela entrega, entrega calcada na própria inocência. Mas o principal é clamar pelo corpo. Ela quer o corpo sem restrições. Chico se entrega, mas sabendo da dor que é fazer isso, do ir contra tudo o que se achou ser, de tudo que viveu. Os dois terminam cantando juntos, intensamente como dois amantes que são.
(Bethânia) Vou te envolver nos cabelos
Vem perde-te em meus braços
Pelo amor de Deus
…
(Chico) Não vou me arrepender
Só vim te convencer
Que eu vim pra não morrer
…
(Chico) E agora que cheguei
Eu quero a recompensa
Eu quero a prenda imensa
Dos carinhos teus
A mulher que nunca terá o que quer e precisa porque nada será tão intenso quanto ela em “Sem Açúcar”. Que morre de amores, que apanha se precisar, mas estremece de amor. O amor sem justificativa, o amor sem razão. Bethânia marca bem que naquele momento morre pelo seu homem sem pestanejar.
(Bethânia) Longe dele eu tremo de amor, na presença dele me calo
Eu de dia sou sua flor, eu de noite sou seu cavalo
…
(Bethânia) A minha paixão é piada, sua risada me assusta
Sua boca é um cadeado e meu corpo é uma fogueira
Depois, Chico se posiciona como a “mulher da relação” naquele instante em “Com açúcar, com afeto”, ao usar seu eu-feminino. A inversão dos papéis, a fragilidade masculina de quem não se importa com o que se deve fazer, se importa com sentir. O alheio ao pré-definido, o igual para igual. O amar sem se importar com o que deveria ser, e sim com o que é.
(Chico) E ao lhe ver assim cansado, maltrapilho e maltratado
Como vou me aborrecer? Qual o quê!
Logo vou esquentar seu prato, dou um beijo em seu retrato
E abro os meus braços pra você.
A lembrança de um amor que passou, ou que vai passar. Os indícios, a serenidade do voraz que também pode ser pacífico. Bethânia vivencia seu eu-masculino em “Camisola do dia”, se põe introspectiva, como um amante que fala com si próprio sobre o amor que passou.
(Bethânia) A camisola que um dia
Guardou a minha alegria
Desbotou, perdeu a cor
Abandonada no leito
Em “Notícia de Jornal”, o amor que só importa aos dois, o mundo não se interessa. O momento que, por mais que seja compartilhado, é egoísta. Egoísta porque nenhum da platéia sente mais do que os dois sentem, o momento do artista e seu palco. Amor que vai acabar e não interessa a mais ninguém. A simploriedade do amar, e do acabar.
(Chico) Ninguém notou
Ninguém morou na dor que era o seu mal
A dor da gente não sai no jornal.
Em “Gota d’água”, Chico e a fragilidade de alguém que pede para ficar em paz. O quanto um amor consome até as vísceras, e como vivê-lo é viver e morrer.
(Chico) Olha a gota que falta
Pro desfecho da festa
Por favor…
Se o ápice emocional foi “Sem Fantasia”, o ápice intelectual, moral e político é “Tanto Mar”. Se a música em si já é um atestado contra todo o cenário brasileiro de 1975, naquele dia a censura não permitiu a utilização da letra. A música só pôde ser relançada com uma versão reescrita. O que era o podar virou energizar. As palavras não proferidas ganham mais forças ainda na intensidade das palmas, na calorosa revolta, no inconformismo imensurável. A cada palma, um renascimento. Impossível me furtar em replicar a letra original da música, magistral, enquanto as palmas ecoam até hoje.
(Chico) Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim
Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim
Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar
Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim
Em “Foi Assim”, as indagações da mulher que sofre e nunca consegue amar. Ama, mas nunca é correspondida, ou quando consegue a reciprocidade, nunca sente a firmeza da incondicionalidade. A vontade de berrar, o não agüentar, o querer amar.
(Bethânia) Se todos no mundo encontram seu par
Porque só eu vivo trocando?
Se deixo de alguém
Por falta de carinho
Por brigas e outras coisas mais
Quem aparece no meu caminho
Tem os defeitos iguais
Em “Flor da idade”, a inocência da descoberta. O amor puro e descompromissado. O descobrir o amor sem amarguras, sem ranços, sem traumas, sem expectativas além do frio na espinha. Chico encarna o pueril.
(Chico) Vê passar ela, como dança, balança, avança e recua
A gente sua
…
Despudorada, dada, à danada agrada andar seminua
E continua
Ai, a primeira dama, o primeiro drama, o primeiro amor
Em “Bem Querer”, a obsessão. O morrer e matar pela pessoa amada por ela ser sua, só sua. Aqui ambos compartilham a loucura ao cantar, Chico e Bethânia, mas ambos com postura serena. Bem querer na insanidade, na possessão.
(Chico) (Bethânia) E quando o seu bem querer dormir
Tome conta que ele sonhe em paz
Como alguém que lhe apagasse a luz
Vedasse a porta e abrisse o gás
O sofrer continua em “Cobras e Lagartos”. O amor que não se completa, a vontade de fugir.
(Bethânia) Me devolva aos meus travesseiros
E perco o meu sono
Que coisa ruim
Eu só sei que a imagem dele
Pregada na insônia
Não desgruda de mim
A inclusão de “Gita”, composição de Raul Seixas e Paulo Coelho, com interpretação de Bethânia me soa como um disparate. Faz sentido, dado que viver não é esperar coerência. Um atestado da existência do inferno, de que nem tudo é perfeito. A discrepância dessa música em comparação às demais é gritante. Vejo Chico claramente torcendo o nariz, e Bethânia sentindo um leve desarranjo intestinal. Mas aqui, o pessoal fala ainda mais alto que nas demais interpretações.
E em seguida, o fim. A despedida festiva dos amantes que se amam, mas não se conhecem. Que viveram, mas não sabem o que acontecerá. O samba que vem lhes buscar, e traz a alegria do incerto. O infantil, o verdadeiro. Em “Quem Te Viu, Quem Te Vê” a troça com a mulher que não é mais do samba, o sarro com quem não sabe viver algo como aquele momento. O samba de rua contra o samba de galeria. O viver na simplicidade, a alegria porque não do próprio pobre, que nada tem, mas que não precisa de nada.
(Coro) Quem não a conhece não pode mais ver pra crer
Quem jamais esquece não pode reconhecer
…
(Chico) (Bethânia) Eu não sei bem com certeza porque foi que um belo dia
Quem brincava de princesa acostumou na fantasia
Em “Vai Levando”, a brasilidade do momento. O não ter opção a não ser seguir em frente, lutando, brigando e quando precisar, fingindo.
(Chico) (Bethânia) Mesmo com o nada feito, com a sala escura
Com um nó no peito, com a cara dura
Não tem mais jeito, a gente não tem cura
E com tristeza, o desfecho com “Noite dos Mascarados“. O não ter certeza de nada do que aconteceu, a utopia carnavalesca, o voltar para o mundo apenas amanhã, hoje não. Hoje eles são apenas um, são amantes, são vivos, morrem de amor. E que o amanhã nunca chegue, o que importa é o hoje.
(Chico) (Bethânia) Amanhã tudo volta ao normal
Deixa a festa acabar, deixa o barco correr, deixa o dia raiar
Que hoje eu sou da maneira que você me quer
O que você pedir eu lhe dou
Seja você quem for, seja o que Deus quiser
Músicas do Disco
- “Olê, Olá” Composição de Chico Buarque
- “Sonho Impossível” Composição de J. Darion, M. Leigh; versão de C. Buarque e Ruy Guerra
- “Sinal Fechado” Composição de Paulinho da Viola
- “Sem Fantasia” Composição de Chico Buarque
- “Sem Açúcar” Composição de Chico Buarque
- “Com Açúcar, Com Afeto” Composição de Chico Buarque
- “Camisola do Dia” Composição de David Nesser, Herivelto Martins
- “Notícia de Jornal” Composição de Haroldo Barbosa, Luis Reis
- “Gota d’Água” Composição de Chico Buarque
- “Tanto Mar” Composição de Chico Buarque
- “Foi Assim” Composição de Lupicínio Rodrigues
- “Flor da Idade” Composição de Chico Buarque
- “Bem Querer” Composição de Chico Buarque
- “Cobras e Lagartos” Composição de Hermínio Bello de Carvalho, Sueli Costa
- “Gita” Composição de Raul Seixas, Paulo Coelho
- “Quem Te Viu, Quem Te Vê” Composição de Chico Buarque
- “Vai Levando” Composição de Caetano Veloso, C. Buarque
- “Noite dos Mascarados” Composição de Chico Buarque
Vídeos relacionados
Maria Bethânia entrevista Chico Buarque – 1981
Maria Bethânia entrevista Chico Buarque de Holanda, na TV Record, 1981. Ao final, Chico canta As Vitrines
Chico Buarque fala de Dona Maria Bethânia
Chico Buarque fala sobre Maria Bethânia. Trecho tirado do documentário “Maria Bethânia do Brasil”.
Chico Buarque e Maria Bethânia – Sem Fantasia
Maria Bethânia recebe Chico Buarque no palco e os dois cantam juntos a música “Sem Fantasia”, repetindo o famoso dueto que faziam em 1975 durante a temporada de shows que estrelavam no Canecão.
Publicado em Música | Tagged 1975, Canecão, Chico Buarque, Maria Bethania | 1 Comentário »
A internet constrói fenômenos em um par de dias. Esses fenômenos costumam ser absolutamente perenes. De repente a coisa surge, por uma ou duas semanas só se fala daquilo, mas logo o assunto some e outro aparece. Acho isso extremamente interessante e acho, acima de tudo, que esse momento de “o assunto” merece ser valorizado e aproveitado.
Esse mês apareceu o ET do Panamá. ETs e criaturas bizarras são um dos preferidos para surtos de vídeos e discussões pela vizinhança. E, num país onde a internet ainda é privilégio de alguns, a TV acaba por ter papel nessa história. Os vídeos, fenômenos na internet, tornam-se fenômenos nacionais quando são veiculados em alguma emissora de televisão. E, nesse caso, quem entrou na parada foi a Globo, não deixando passar a força que tem um burburinho em volta de um mito como um ET. Durante a semana passada as chamadas do Fantástico diziam que ali veríamos a verdade sobre o ET do Panamá; criou-se um mito em cima do mito. O mito ET passou a estar ligado ao mito Fantástico (revelador, exclusivo, um caráter que, na verdade, está meio esquecido no programa), que se apropriou de um assunto que, originalmente, para nós, estava liberto na internet. Aí vem o primeiro questionamento: a Globo adotar esse discurso de única possuidora de uma verdade relativa a um assunto que está “na boca do povo”. Sendo ela, a emissora, colocada como detentora da voz enunciadora e explicadora, única capaz de revelar às pessoas o que elas estão pensando.
Bom, isso é muito babaca, mas está longe de ser surpreendente. O choque veio do esvaziamento dramático da “revelação” dessa verdade. Impossível não lembrar e comparar com o ET de Varginha. Minha memória do caso mineiro não me permite analisá-lo como procedimento de reportagem, mas eu tenho essa lembrança, existe imaginário. Lembro de sensações, do meu medo com uma câmera, estilo “subjetiva do monstro”, caminhando na mata a ponto de atacar ou ser atacada. O ET de Varginha se tornou um caso, houve dramatização, criou-se um clima na reportagem, exagerou-se, fez-se sensacionalismo. Sem julgar a escrotice ou a qualidade da dramaturgia utilizada, criou-se dramaturgia e ponto.
Agoram, no ET do Panamá, a busca foi pela explicação aos idiotas. Venderam sua reportagem como a verdade científica por trás do vídeo, mataram, sem dó, o mito, as discussões, as teorias, ou seja, a dramaturgia. Ao contrário de Varginha, quando o caso ficou num aberto suspense, aqui tudo se fechou de forma rasa; um sujeito, apenas um, veio e explicou tudo. Nós, para a Globo espectadores idiotas, temos que acreditar e aceitar sua versão do “especialista”, figura essa, repugnante e recorrente na emissora.
Isso me lembra muito os depoimentos “reais” ao final de Viver a Vida, a catástrofe das 8 assinada pelo Manoel Carlos. A “verdade” e o discurso tido como “realista” são muito mais importantes do que a dramatização e, inclusive, do que o drama em si. Isso é muito sério, por além de mostrar o descaso com a própria linguagem mostra o descaso com o indíviduo; o que importa não o drama, a história daquela pessoa, mas sim a carga de realismo que ela consegue representar diante da câmera.
O que a Globo fez com o ET foi um assassinato sem dó. Matou uma história, um imaginário, uma brincadeira. E matou porque quis matar, sem evidências de falsidade; foi um posicionamento, uma opção como instituição e como forma de se fazer jornalismo e entretenimento. Ela pegou para si e jogou no lixo, privando seus espectadores dessa história.
Eu acredito no ET!
Publicado em Televisão | Tagged ET Panamá, Fantástico, Globo | Deixar um comentário »
Aproveito para passar lembretes sobre eventos organizados por amigos que serão essenciais. O primeiro ainda está pro fim do ano, mas será uma mostra com os filmes realizados na Alemanha oriental, pela DEFA, são basicamente raros, e certamente terá muita coisa que precisa ser vista. De 50 à 80, são inúmeros os filmes e também serve como possível descobrimento histórico do período cultural que ali está abrangido, quais são as imagens que seriam plausíveis então – um estudo que se faz permitido inéditamente. O Outro Lado do Muro é o nome, e será preciso torcida pra SP poder ver isso.
A outra é pra já. A Semana dos Realizadores é um evento que ocorre uma semana antes do Festival do Rio, mas que merece uma relevância como tal. Permitirá a exibição de diversos longas recentes de cineastas que estão mais ou menos à margem do circuito oficial. É um contraplano dos festivais oficiais. A programação faz opções realmente muito interessantes, exibindo não só os alternativos manjados (Duda, Bragança) e necessários, como caras mais fora de tudo vide Rodrigo Aragão, Gustavo Beck, e até mesmo um caso diferente como o Sagrado Segredo.
Os sites:
Publicado em Cinema | 2 Comentários »

A boca torta clama por direitos iguais
O momento único, que dura poucos segundos e a imagem que se propaga por milhões. O registro não pensado, a encenação real da vida. Liga-se a câmera, e um bando de infantes se posiciona alegremente. Fazendo troça, zombeteando. O registrar nada, o ser surpreendido pela dimensão da própria imagem. Um anão de gente que rouba toda possível imagem.
O suposto pigmeu do bulevar, a brasilidade pura, a latente troca de voz e o assovio de cachorro ao falar. O terceiro mundo, a boca torta e rígida, a ausência de dentes e o cagar para todos. O manifesto anti-primeiro mundo, o não se subjugar, o pronunciar errado e aportuguesar a palavra que denota o estilo livre de viver. Freestyle, mas que em sua boca torta se torna Fístaile. O ódio ao consumismo, ao mercado opressor, à ganância da falsa burguesia brasileira, aos empresários discípulos de Roberto Justus e seus Everests corporativos.
Pequenino, feinho, mas imenso. O riso dos milhões, a vontade recorrente de acompanhar o pobre menino virar as costas para todo o mundo. O xingamento mal pronunciado, o dedo no olho enfiado pela própria amiga. Uma tomada de postura; questão de sarro e rebeldia.
Publicado em Humor | Tagged Fístaile, Guelaio, Pigmeu do bulevar, Youtube | 5 Comentários »
OK, o Chiko tratou de forma bem direta da resolução dos problemas que nasceram ali, durante o jogo. Eu quero pensar no porque o Chile foi um adversário, no porque Alexis Sanchez é tão bom. Afinal, causar expulsões – a dele, convenhamos, um absurdo, já que foi amarelado ao levar um tapa do André Santos. Falam do Felipe Melo, mas o André foi pior. No lance do gol, quem marca o ponta por aquele lado é ele, perde fácil pro Sanchez, o Felipe não é muito melhor e acaba fazendo o penalti, talvez desnecessário, e talvez se o André fizesse o mesmo, não teria gol. Mas não vou defender que ele devesse fazer a falta, mas pelo menos oferecer dificuldade. Uma marcação decente faria o cara pelo menos ter corta-lo, demorando o lance. Foi mal na contenção do Alexis, não subiu com presença, e ainda foi violento… É só um jogo. Mas é caso de se pensar. O Felipe Melo fez erros feios, jogou mal. E são erros normais pra ele, até. É sempre um cara nervoso, sempre inventa com seus passes bisonhos de letra. Parece eu jogando no futebol de quinta. Só que isso é um lado dele, o resto ele é excelente, oferece coisas que ninguém foi capaz de. Acho um titular absoluto, e digno. Essa coisa de não querer jogador louco no time é chata. Sou mais Felipe Melo que Gilberto Silva.
Sobre o Chile, o ataque é bom, mostrou envolvimento, o Bielsa mostra mais uma vez que domina os times. Surreal o papo do Galvão, que queria que ele defendesse quando empatou. Caçoou até. O time não tem defesa, e seria babaca, escroto e tosco com um a mais, um time bom de ataque, querer o empate. Muita gente diz que tem que se jogar na defesa pra ganahr do Brasil, e é fato que time ruins dão mais dificuldade, mas dão porque não tem mais o que fazer. O Brasil estava com sérios problemas, jogou bem no começo, mas após a expulsão, parecia mesmo que poderia cair. Foi aí que entrou o post abaixo. E eu comento os méritos dele estar na seleção, afinal no Brasil, o Sandro era melhor opção se pensarmos num volante que fica. E o Pierre está fora da temporada. Fora isso, gosto do Fabricio, mas ele é menos volantão também. Ousado foi não colocar o experiente Lucas. Ousado e inteligente, pelo que ele vem apresentando. Denilson e Anderson na seleção, é o ideal para mim, as opções de movimentação certeira. Num jogo desse, com o Ramires fora, o Anderson entraria em qualquer posição.
Publicado em Futebol | 1 Comentário »

A falta de ar
O confrontar, o se expor, e principalmente, o respirar. Logo no primeiro plano, assustadoramente belo, o personagem de Joaquin Phoenix, Leonard Kraditor, caminha pelo píer com uma camisa engomada em suas mãos. Lento, incômodo, ansioso. O que se prossegue é o acontece em outras obras de James Gray, que é o confrontar o próprio âmago. Como Bobby Green (Joaquin Phoenix) e Joe Grusinsky (Mark Wahlberg) em Os Donos da Noite enfrentaram o que eram, inclusive ao aceitar a omissão e as próprias mazelas no caso de Joe, aqui Leonard enfrentará problemas com um teor psicológico mais explicito, e não apenas marcas de uma vida dolorosa e segregadora. O personagem de Joaquin é transtornado e se entrega a isso. Mergulha no mar como se encarasse o espelho. E volta, pacificamente nas imagens, para sua realidade. Mas a suposta realidade na qual vivemos muitas vezes é uma projeção das expectativas de todos que nela já viveram ou vivem. Ora falsa, ora burra, ora superficial. Leonard representa o oposto, o flagelado pelas emoções não controladas, pelo transgredir. Sem medo, ou melhor, ciente do medo, e de que viver implica sentir medo. O não saber viver sem sentir medo. Abraçar o momento, intensamente, sem indiferença, mas repleto de dor.
A família de Leonard. Complacente no amor incondicional e conformada com perder o filho no mais súbito dos momentos. Seja no suicídio, no fugir, no enlouquecer. A total apatia do filho, sem pretensões, nem ao menos em levar o negócio da família adiante. Gray filma a dificuldade da relação familiar com alguém que não sabe jogar a sujeira por baixo do tapete. Amor de pai, de mãe, eterno. A família como entidade indivisível mesmo no momento da separação. A dor no olhar da mãe que não entende o próprio filho, apenas o aceita. A câmera que acompanha o esquisito Leonard em seus trejeitos, aspirando uma normalidade que no fundo não existe, que no fundo é irrelevante. A dor do não se encaixar.
O encontro dos amantes. O amor de conveniência, que parece ser certo, aquele que não representa nada, mas pode ser especial. Vanessa Shaw, interpretando Sandra, como a normalidade. E Gwyneth, interpretando Michelle, como a voracidade que Leonard também carrega. E nesse meio, os pais tentando garantir a paz do filho, inclusive na futura aliança comercial com o pai de Sandra; e Leonard, que ao conhecer Michelle encontra o real sentido da sua existência ali naquele momento, não na racionalidade, e sim na intensidade.
Joaquin absorve Leonard. Seu jeito esquisito de andar, os braços tensos, o olhar afobado. As tentativas de inclusão, como no clube na qual aceita entrar no meio na pista executando alguns passos com surpreendente naturalidade, ou quando improvisa um rap no carro no caminho para o mesmo clube. Michelle, tentando se livrar das drogas, e Leonard, que encontrou a droga que deu rumo para sua existência ali naquele momento, a própria Michelle. A entrega física de Leonard a Sandra, fria e protocolar, e a combustão ao se aproximar de Michelle, mesmo sem contato físico. A imagem que incendeia a cada vez que Leonard vê Michelle.
Michelle e sua tórrida relação com um homem casado. Relação dependente fadada a falhar. E Leonard tentando conquistá-la. Os encontros no topo do prédio, o ar frio que rasga as emoções, a câmera que acompanha o desconforto de Leonard e Michelle. O amor suicida. A declaração mal recebida, mas aceita, estranha. O coito frenético e cheio de descarrego.
O fugir juntos. O abandonar tudo, sendo que o tudo é nada. O fazer escondido, como uma criança planeja fugir um dia da escola para brincar com os amigos. O pueril, mas devastador. Os encontros marcados e a execução em plena festa de família. A falta de fôlego ao sair correndo pelas escadas enquanto a namorada sobe pelas escadarias. E o confrontar com a mãe, que o aceita do jeito que ele é. Apenas quer seu filho vivo e feliz.
Os instantes que duram horas enquanto espera sua desenfreada paixão chegar. A câmera incômoda, a tensão nos movimentos. O plano lento, sufocante, inebriante de Michelle vindo em direção a Leonard. Os trejeitos acentuados. E a separação.
A lente que focaliza o mar, o inevitável suicídio. O reencontro com o inicio, e a paz em se saber que não é daquele mundo. Os pés desconjuntados, que se arrastam pela areia. O olhar de tristeza. O anel, símbolo do viver, agora símbolo do aceitar. E a aceitação, mesmo que temporária, do ser pouco feliz, do abandonar o que se sente. Por enquanto. Até toda aquela intensidade voltar. Amantes é um grande filme, e James Gray capta em cada plano uma sensação irrefreável, sufocante e bela.
Publicado em Cinema | Tagged Amantes, Gwyneth Paltrow, James Gray, Joaquin Phoenix, Two Lovers, Vanessa Shaw | 1 Comentário »

Nilmar comemora
Na final da Copa América, contra a Argentina, houve um substituição que apareceu como exceção nessa minha teoria sobre o técnico da seleção. Daniel Alves entrou no time, mas Maicon foi mantido; e isso foi fundamental pra vitória do Brasil, quebranto taticamente a Argentina. Ontem, mais uma vez, Dunga teve um momento “estrategista”. Primeiro, ficou claro, o acerto em sair com Daniel Alves no meio; aqui não houve o mérito de confundir o adversário, mas Daniel jogou muito bem e deu assistências pros dois primeiros gols da seleção. Dunga soube usar um jogador no auge de sua forma e o ânimo extra dele por estar disputando uma partida na sua terra natal.
Mas o grande momento citado no título não é esse. A expulsão de Felipe Melo deixou o Brasil perdido em campo, sofrendo, em seguida, o empate. A primeira atitude, ainda antes do gol chileno, tomada pelo técnico, foi recuar Júlia Baptista para ocupar a posição de Felipe. Não deu certo. E Dunga soube ver isso a tempo, tirando Júlio e promovendo uma estreia, Sandro, sob essa responsabilidade. Não vou nem entrar no mérito do acerto ou erro na convocação de Sandro, não é isso que interessa nesse caso. Mas essa substituição recompôs o meio-campo da seleção e reorganizou o time, foi instantâneo. E Tardelli na frente, no lugar de Adriano, deu mais velocidade a um time que precisava muito dela, jogando no contra-ataque.
Não acho, então, que o Dunga seja uma gênio. Continuo achando que o time joga taticamente meio sozinho, mas ontem ele foi fundamental.
Publicado em Futebol | Tagged Daniel Alves, Dunga, Sandro, Seleção Brasileira | 4 Comentários »
Foi um segundo capítulo de última semana bem caído. Ele ficou dividido entre o estabelecimento de questões já presentes (o drama de Tônia tendo que escolher entre casar com um esquizofrênico ou partir em busca de seu sonho acadêmico, os enganados se recuperando do choque provocado pelos enganadores – aqui entram boa parte dos personagens da novela – e etc.) e a “morte” de Raj.
Mas essa morte é uma piada. No site oficial da novela surge a manchete: “suposta morte de Raj abala a família”. Pô, é muito difícil deixar a gente se envolver com um drama que está acontecendo na novela? Por si só, essa morte, acontecendo numa terça, com três capítulos por vir, já seria evidentemente um alarme falso. Se tem uma linguagem que conhecemos é a de novelas da Globo e sabemos que não, o protagonista, maior galã do país no momento, não morreria no final (e muito menos antes do final como seria o caso). E isso complica essa situação que dominou o capítulo de terça-feira, pois fica difícil o envolvimento com aquele drama sem acreditar nele. O drama está na tela, e apenas lá. Claro que é possível manipular o espectador e fazê-lo interagir com o drama mesmo sabendo que é, quase com certeza, falso dentro da própria história; mas não há na equipe de Caminho das Índias ninguém que pareça capaz de tal construção. Pensando tudo isso eu pergunto se seria muito sacrifício a novela acreditar em si mesma por um segundo e deixar o drama acontecer. Parece que eles mesmos querem boicotar a relação do espectador com a obra. Acho bem bizarro e completamente contraproducente.
Outra coisa que atrapalhou demais a narrativa da morte de Raj foi um procedimento recorrente, dessa vez vindo de dentro da novela, de sua autora, e que, nesse capítulo, foi excessivamente presente. São as explicações da cultura indiana. Nem ali, num momento ápice do drama da novela, Glória Perez conseguiu deixar seu didatismo de lado e preferiu dar aula ao invés de construir uma história. Para essas aulas, o recurso sempre utilizado foi o mais simplório possível. Os personagens simplesmente esquecem sua própria cultura e afirmam ou perguntam asneiras que são prontamente corrigidas e explicadas por algum outro personagem mais atento.
“Porquê estamos dando voltas?”, pergunta o personagem de Caio Blat em meio ao cortejo com o corpo de seu irmão. Primeiro, tamanha indelicadeza reclamar da distância percorrida com a família chorando a morte de um membro; e pô, seria tipo eu perguntar num enterro o porquê de estarem cavando um buraco.
Além de várias outras explicações dadas da mesma maneira pela boca de Nívea Maria, José de Abreu e outros atores.
Parece que, para a novela, sua autora e seu diretor, existe coisa muito mais importante do que os personagens e as histórias que estão sendo contadas ali.
Publicado em Televisão | Tagged Caminho das Índias, Gloria Perez, Novela, Raj | 1 Comentário »

são mania nacional, mas deixados de lado no final da novela
Esse primeiro capítulo do fim teve bem uma cara de primeiro capítulo. Vários conflitos e questões se iniciando (a morte de Raj, a possibilidade de Bahuan assumir e criar seu filho com Maya, o encaminhamento decisivo da relação Tarso/Tônia). Bom, normal, quadradinho, mas nada também que mereça ser detonado. A Glória Perez é uma autora completamente filiada a uma forma super tradicional de se fazer novela; e essa é uma característica, uma escolha, e não, a priori, um problema.
O que me chamou a atenção negativamente foi a escolha, pela autora, do que era merecedor de destaque na conclusão da novela. A coisa me parece bastante pautada em dar foco ao que “interessa”. Sendo o “interessa” aquele núcleo principal, que domina a novela do começo ao fim (coisa que em novelas da Glória Perez não tem rolado muito bem. Tanto essa agora como América, pareciam funcionar em blocos, com personagens num momento dominando a novela e em outro quase esquecido). Mas bom, na última semana as atenções voltam a esses protagonistas. O primeiro senão vem da forçada monumental de barra da autora em empurrar goela abaixo do espectador o triângulo amoroso Raj/Maya/Bahuan. Ele não deu certo. E não deu certo mesmo. Bahuan, em certo momento, virou vilão, coisa que parece abrandada no momento. E, na ultima semana, como ninguém tem a menor dúvida, a menor tensão sobre isso (todo mundo está fechado com o casal Maya/Raj), Perez inventa essa “morte” do Raj. É tentar criar tensão onde ele mesma matou o clima durante toda a novela. Insosso, no mínimo.
Outra opção estranha foi a resolução precoce do caso Norminha/Abel, enquanto Tarso/Tônia ganham contornos de grande drama. Claramente voltamos ao que “interessa”. O drama insuportável, edificante e educativo vence, claro. Mas acho uma bobagem optar por essa “seriedade” temática, com dois atores muiot medíocres, em detrimento do casal que foi o grande boom da novela. É ser muito cabeça dura apostar num e não noutro. Uma pena, porquê a cena da reconciliação de Abel e Norminha, bem pensada por sinal, poderia ter sido a conclusão de algo muito mais explorado e bem construído durante esse encerramento de novela.
Ah, mais uma coisa, rápida. Acho bizarro como a Glória Perez vai de um humanismo despretensioso a um fascismo repugnante no mesmo capítulo. O humanismo está em Abel e Norminha. Eles ficam juntos e pronto; julgamentos de valor ficam pra trás e a vontade dos indivíduos prevalece. E o fascismo vem do julgamento de Yvone. A mãe da personagem declara que a filha nasceu má. Que ela fingia que não via, mas que a menina sempre foi má. Entra um flash back da menina Yvone fazendo maldade. Achei que essa coisa de eugenia estava superada. Bom, não está. E isso é muito sério.
Publicado em Televisão | Tagged Abel, Caminho das Índias, Gloria Perez, Norminha, Novela | Deixar um comentário »
Estaremos voltando ao normal muito em breve, de forma mais organizada. Isso é sério. Certo?
Publicado em Uncategorized | Deixar um comentário »
Reclamar a não seleção do próprio filme por parte de um festival é melancólico e, de qualquer forma, ineficiente. Lamentar não resolve nada. É por isso que decidi escrever este texto a fim de esboçar um ENTENDIMENTO sobre o por quê do meu 1o curta, “Danças”, ter sido recusado pelo Festival Int. de Curtas de SP, mas, sabendo que essa tentativa de compreenssão está fadada de antemão ao fracasso, escrever as linhas abaixo não deixa de ser antes de tudo uma terapia individual.
1) Ter o filme recusado em Brasília, ok, dá para entender perfeitamente. No Ceará, ok também. Em Paulínia então, a gente já inscreve tendo consciência de que lá o cinema é visto sob uma outra ótica.
Agora, ter o filme excluído de uma seleção que tradicionalmente evita o recorte estilístico e abrange a diversidade (regional, temática e, principalmente, formal), o que por sua vez só é possível mediante o alto número de selecionados (neste ano há 53 curtas no Panorama Brasil somados a outros 28 no Panorama Paulista), é um atentado.
2) “Danças” não se enquadra? Não se enquadra no quê, afinal? Ademais, se enquadrar é uma questão? Acho que não.
Numeremos então alguns motivos que certamente não ajudaram o filme na seleção (sem que isso tenha a pretensão de justificar a exclusão):
- O filme NÃO se dirige ao espectador (ele é um convite para que o espectador se dirija a ele).
- O filme NÃO tem uma história.
- O filme NÃO tem um discurso social.
- O filme NÃO tem piadas para ganhar “prêmios do público”.
- O filme NÃO tem dramas humanos individuais pequeno-burgueses.
- O filme NÃO é baseado em um conto do Machado de Assis.
- O filme NÃO é uma biografia de Leonel Brizola.
- O filme NÃO fala de quando o Michael Jackson esteve no Brasil.
- O filme NÃO homenageia o Chico Buarque.
- Enfim, o filme NÃO tem a tal da “relevância” (termo de Francis Wogner).
- O filme NÃO fala a “língua da tribo” (expressão de Reinaldo Yamada), é esquisito demais.
_ O filme NÃO é um documentário metalinguístico em 1a pessoa.
_ O filme NÃO emula Tarantino ou Antonioni.
- O filme NÃO se adequa ao gosto MÉDIO.
- O filme NÃO tem a duração MÉDIA de 15 minutos.
- O filme NÃO tem 3 minutos.
- O filme NÃO tem o Selton Mello.
- O filme NÃO tem a cartelinha “Festival de Cannes” no início.
- O diretor NÃO enviou o dvd pra seleção numa caixinha profissional.
- O diretor NÃO é ator nem músico.
Então, o que o fime é, afinal?
É definitivamente ruim e tem que ir direto pro youtube? Bom, ser ruim não seria motivo de exclusão, uma vez que já vi trabalhos muito fracos neste mesmo festival (mas não quero entrar neste território lamacento da comparação valorativa em respeito à maioria dos outros realizadores).
Quem são os curadores? Qual o critério utilizado?
Perguntas no vazio, e só resta continuar a trabalhar, com aquele prazer que independe da aceitacão ou não por parte das curadorias.
Nada de “curta portfólio”. Afirmar sem medo a Diferença. E filmar é um ofício de amor.
ps: obrigado aos parceiros deste blog por cederem este espaço coletivo para a manifestação de algo incovenientemente individual, mas este texto, neste momento, se fez necessário (ao menos para mim mesmo).
Publicado em Cinema | Tagged Brasilia, Curta-metragem, Danças, Festival de Curtas, Festival de Paulinia | 10 Comentários »

Um Retorno a Salem's Lot, de Larry Cohen.
Larry Cohen é a base de uma série de textos que eu pensei em produzir, não recentemente, embora ainda goste do que eu tinha em mente. O filme b era o tema, e o momento os anos oitenta no cinema americano. A idéia era tratar de figuras como William Wesley, Eric Red, William Lustig, Robert Harmon. Todos cineastas que lidaram com o gênero no cinema americano em um período ótimo nas pequenas produções. Como o B foi se tornar o A, com John McTiernan e os filmes de Schwarzenegger estourando. James Cameron por exemplo, um cara que fez a passagem direta. O primeiro Exterminador seria o que? Penso também em cineastas como Mark Lester, que trabalhou em todas as alas. Seu filme mais famoso é Comando para Matar, com menos dinheiro fez o Class of 1984, um filme digno do melhor cinema. Sozinho no Escuro, filme do começo dos 80, um grande filme, é obra de Jack Sholder, diretor de O Escondido. Não são filmes que interessam só pela conceitual do momento – O Escondido é um filmasso. Penso o que une esses filmes além de serem filmes de orçamento modesto. E olho para Cohen: seu essencialismo. Ele é o mestre no essencial, vide Perfect Strangers – no Brasil algo tipo Inocência Fatal. Cohen é um cara de muitos grandes filmes, mas poucos assim, tão exatos.
Publicado em Cinema | Tagged James Cameron, Kathryn Bigelow, Larry Cohen, Mark Lester, Robert Harmon | Deixar um comentário »

A passagem
A imagem como exasperação do sentimento. Um manifesto do respeito e do tradicionalismo dos orientais – por mais burra que seja qualquer generalização – com seus mortos, em contrapartida com a difusão da morte como perda autocomiserativa que abala quem fica. Rituais esses que se marcam até no desrespeito pelos mantenedores da tradição, como se essa fosse a missão de homens sem alma, que não podem se apegar à ninguém. Homens os quais acabam vivendo unicamente para aquilo.
O filme são tradições. A mulher que ainda se sacrifica por seu homem, renegando sua profissão, moradia e anseios em contrapartida a um sonho fracassado do homem de ser um grande músico. Que leva a sair de uma metrópole e voltar às origens. A dor do sonho que não se realiza, e pior, que se chega muito perto, mas no fim deixa apenas uma dívida. Sonho que o capitalismo não deixa realizar, o importante é se sustentar, não existe apoio ao que não é produto. O talento que existe, mas que sempre ficará atrás de outro músico mais talentoso. Talento que vira um peso.
A dor daqueles que se fecham em si próprios, expondo ao mundo uma casca dura e ressentida. A distância marcada desde o dia que o seu próprio pai desapareceu, talvez não suportando o seu próprio invólucro. Dor essa que se arrastará até o momento que o próprio filho prepara o corpo do seu pai para o funeral. Dor simbolizada em uma pedra, que é o ápice da frigidez e do não-sentimentalismo, mas que naquele momento transmite o amor que não é daquele mundo, que nunca vai ser visto naquele mundo, e sim que se inicia com a jornada da pós-vida.
Além disso, o encontro. Um homem que se encontra na mais bisonha das profissões, mas que é firme na sua assepsia emocional e ali se apega. Distancia-se do resto, mas que a ciclicidade traz de volta, como no caso da mulher amada.
E o apoio no humor, na troça. No vídeo institucional, que tendo o protagonista como cadáver voluntário, sugere um tampão anal para evitar vazamentos. A sensação é a mesma que se passa em um velório, quando as pessoas tentam contar piadas e amenizar a sensação da perda. O momento da dor, e as pessoas tentando tornar superficiais os segundos que valem por horas.
A Partida é uma emulsão dos sentimentos que envolvem a morte em imagens. Não apenas a morte em si, mas os momentos chaves da vida. E em imagens, isso transparece nas pieguices que permeiam o chulo, parecendo um vídeo de auto-ajuda, mas manifesta o que é e somos no fundo da alma: um emaranhado de sonhos, em sua maioria frustrados, ou apenas não-realizados. A cena do protagonista tocando violoncelo no meio do campo dá a impressão de um sonho juvenil, de uma fantasia adolescente, de algo que se pensaria antes da amargura da vida nos tomar. É babaca, é simplório, é “feliz demais”, mas é isso que a morte nos traz, a iminência ou a concretização da perda nos joga a confrontar aquilo que esperávamos que fosse acontecer, seja isso um anseio pueril. E isso está nas imagens. De maneira brega, mas está. E isso é o viver sem mágoas e rancor. Sonhar sonhos que a vida não nos permite.
No exagero, se solidifica. Porque morte é exagero, morte é dor, é destempero, mas também é um confrontar com a vida. É idiota, como qualquer ser humano. Idiota porque tendemos a enfrentá-lo com o rancor que a vida adulta nos traz. A Partida são emoções em imagens, cinema como confronto, humanidade em exagero. Defeituoso, mas não na concepção cinematográfica, e sim por tentar se assemelhar a nós, humanos. Deveras tocante.
Publicado em Cinema | Tagged A Partida, Departures, Okuribito, Yojiro Takita | Deixar um comentário »

O mestre Zidane consola o projeto de jogador de futebol
Heresia a comparação, e não é esse meu intuito. Não faria sentido, mas o caminho desse texto não é esse.
Zinedine Zidane é uma divindade. Acima do bem e do mal, o gênio que ultrapassa o campo futebolístico e invade o social, o político, o humanitário, o artístico. Gênio que demonstrava seu amor pelo futebol, e principalmente pelo futebolista, desde os tempos que jogava com a camisa do seu ídolo Enzo Francescoli por baixa da camisa do Olympique de Marseille. Zidane foi e é um mito. Renegou a ostentação, os colares imensos de gangsta rapper e os brincos de diamante, e odiava o rótulo de jogador mais caro de todos os tempos, título o qual perdeu felizmente após a venda de Cristiano Ronaldo para o Real Madrid. Um deus não deve ser associado a dinheiro algum.
Tudo isso para chegar a Robinho, o anti-Zidane, salvo pelo talento que os dois possuem. Claro, Zidane possui muito mais, mas Robinho é inegavelmente talentoso.
Mas escolheu outro caminho, escolheu a soberba, o narcisismo, o se achar o umbigo do mundo. O franzino craque do Santos forçou sua saída para o Real Madrid, clube que ajudou recentemente a afundar – ou pelo menos complicar – a carreira de grandes craques, e lá foi coadjuvante. Argumentarão que o técnico não gostava dele, ou que a lesão no púbis o complicou, mas a verdade é que ele quer ser o que nunca vai ser: o melhor do mundo. Desde cedo canta para todos os cantos que deseja ser o melhor do mundo, um titulo individualista, sendo que nunca conseguirá ser. E o resto não lhe interessa. Falta futebol, falta hombridade, falta comprometimento.
Agora figura em um mediano Manchester City. Reclama de cansaço, do time, do técnico. Mas como alguém que deseja ser protagonista depende tanto de outros fatores? Robinho vive a vida de festa, o sonho trajado de lamborghini e que se sacia em uma roda de pagode nas férias que a Seleção lhe proporciona. Porque claramente para ele a Seleção é um reencontro com os amigos, uma imensa pelada. E na hora que o time precisa dele, suas pedaladinhas somem.
Agora lembrei o porquê citei Zidane. Ver o pateta do Robinho jogando porcamente pelo City e pela Seleção, enquanto insiste no sonho autista de ser melhor do mundo, me dá imensa saudades de Zinedine Zidane. Que não queria ser ninguém, apenas ele. Um deus. O único que conseguiu ser maior que uma taça da copa do mundo. Que, sendo um deus, se aposentou como humano em um ato de destempero, que renegou a podridão moderna, que se sacrificou para colocar o neofacismo berlusconiano ou materazzistico no seu devido lugar: no chão. Que saudades de Zizou, a lenda, o mito. E que Robinho vá para o Qatar o mais rápido possível. E que se consolide como o novo Denílson.

Maior que uma reles conquista
Publicado em Futebol | Tagged Manchester City, Real Madrid, Robinho, Seleção Brasileira, Zidane | 2 Comentários »



