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Revi este filme do Sam Raimi que é geralmente tratado como um de seus trabalhos menos curiosos. Sempre gostei. Mas a lembrança era realmente distante, lembrava apenas tratar-se de um faroeste com uma olhar maneirista. Nada disso deveria surpreender ninguém que conheça o Raimi, mas obviamente isso não garante ao filme defesa.

O Raimi tem algo que é muito curioso – embora ele seja um destes cineastas que exalam as influencias, as construções reimaginadas, seu estilo, exceção feita a Um Plano Simples, é bem definido. Ele é um cartunista. Isso é fácil de identificar num Evil Dead, especialmente no Uma Noite Alucinante, onde o delírio se materializa sem que nada que aconteça na tela pareça verdadeiramente concreto. A alucinação não é táctil. No Rápida e Mortal, o Raimi reconstrói o universo mais simplório do western – num cenário curto, acanhado. de uma pequena ruela, diversos personagens comuns desse mundo se cruzam – a dama forte, buscando vingança, um bandido que comanda a cidade com sangue nas mãos, o bandido outsider que se torna pastor e termina pregando com o gatilho mais rápido do lugar, e o filho bastardo do vilão, um garoto marginalizado e sedento por um duelo com o pai. O que Raimi faz é levar esse estilo ágil, insano e vicioso ao videogame. O filme-videogame de Raimi antecipa, em muito, uma tendência que se tornaria muito concreta agora – há jogos, como LA Noire, que são muito mais inspiradores ao cinema do que grande parte dos chamados filmes de hoje. Mas isso não é o ponto – o filme é muito interessante. Não está apenas nos movimentos excessivos, no ritmo alucinante dos duelos, está na própria criação do espaço no filme. Na relação dos personagens, no espaço físico – onde seguramente poderia se trafegar num jogo sem se exigir os enormes mapas que os atuais possuem – e na construção estrutural, toda em torno de duelos que vão eliminando seus personagens, chamados pegajosamente de The Kid, Preacher, e afins. Seria interessante pensar porque o cinismo do Raimi consegue formar algo tão delicioso com esse tipo de material, mas funciona tão pouco quando se reduz a si, como no caso do The Gift e do citado Um Plano Simples. Sei que ele tem fãs que gostam mais desses filmes do que dos arrojados. Seria uma discussão válida. Enfim, acho que ele alcançou seu melhor em outros filmes, como o Darkman e o Noite Alucinante, onde a harmonia era total, mas não creio que o Rápida mereça o silêncio histórico.

Só fui ver o Source Code agora, um tanto de tempo depois de ele ser tão ‘comemorado’ pela crítica pelo mundo. Enfim, sempre desconfio dos achados da crítica oficial como Duncan Jones. O filme tem lá seu interesse, constrói bem o labirinto em que o personagem do Jake Gyllenhaal se encontra. Seu personagem é vitíma de uma experiência militar que se utiliza do cerébro dele para tentar solucionar eventos terroristas, lhe dando um campo de 8 minutos pra retornar no tempo antes de uma tragédia e desvenda-la, quantas vezes for necessário. A insistência do personagem em não admitir que a realidade que ele sente e confia não ser virtual é algo irrelevante é o ponto alto, nenhuma imagem é menor que outra. Também curto a parte em que ele descobre que a ‘capsula’ é fruto de sua própria criatividade. Acho que a ação do trem é bem orquestrada, mas pra lá de desinteressante. A ideia do retorno é boa, embora muita gente pregue uma criatividade absoluta no filme, que não é bem verdade. Ele sabe fingir criatividade repetindo expedientes de tantos filmes de volta no tempo. Acho que o filme de fato está longe de ser mediocre, é talentoso, oferece material pra discutir, tenta reorganizar ideias muito utilizadas… Talvez seu maior defeito não esteja mesmo nele, tenho muitas dúvidas se não está, que é a presunção de algo muito forte ocorrendo ali. Acho que o filme se vende um tanto essa obra grandiosa que se comprou, quando de fato, na prática, é algo bem mais simplório, quase um filme B.

Mas vá lá, dá pra desconsiderar um pouco essa impressão, e deixar de pegar no pé de quem não tem nada a ver com o filme – vale ser visto.

Assisti ao Anjos da Lei, acho que o filme tem lá uma boa dignidade. É claro que é o Superbad refeito, mais careta e em versão policial, mas com a mesma ideia central do bromance. Só que dessa vez Channing Tatum, um galã mais conservador enquanto lá era o indie Michael Cera, é o casal do nosso agoranemtãogordinho preferido, Jonah. Nada é muito bom de fato, excessão feita para a sequência da droga, uma espécie de doce, em que os dois a consomem na escola. Esse pedaço é longo e inacreditável de engraçado. É claro que eles chutam pra todo lado, sem medo de errar, o que de fato só melhora o que atingem, a comédia auto-destrutiva. Os planos do Jonah correndo com atletas e o do Channing Tatum tocando com a banda e depois pulando no bumbo da bateria são antológicas. Quebram ferozmente com essa caretice que eu vejo em parte do filme, embora este seja lá uma tentativa simpática de reimaginar o romance entre amigos. Não é a primeira vez que tenho esse tipo de sensação, mas quando os duplos são invertidos no filme, na volta a escola como undercovers, os dois descobrem que agora os geeks são pops e o jock um outsider, fiquei com a impressão de que o Channing Tatum ganha muito mais ao se desestereotipar como um renegado na escola do que o Jonah como um cara popular. Tudo bem que isso é meio óbvio, já que o Jonah fica babaca e o Channing gente boa. Acho que eles prolongam demais o deslumbramento do personagem do Jonah também. Enfim, o filme retoma um pouco mais de sucesso nas cenas de comédia mais puras, retomando Segurando as Pontas no jeito de abordar as sequências de ação. São oitentistas, insanas, toscamente divertidas. MEnos violentas aqui do que lá, o que é uma questão de colhão pura, até onde você leva o estilo. Quando ele assume esse lado que parece ser o seu desde o princípio, mas que as vezes fica esquecido na preparação da relação entre os dois que não vinga muito bem pra além de um ou outro momento, a parada é boa. Lembrei de uma cena antológica que tinha esquecido, quando os dois pegam drogas que estão guardadas como evidência pra fazer a melhor festa que uma escola já teve – genial. A cena da festa também parece um Superbad tosco, aliás. Pena que tudo que é legal no filme seja assim, uma versão de algo que era muito melhor noutro filme.

O nome dos caras que copiam com algum talento são Christopher Miller e Phil Lloyd. E, sim, isso é uma versão daquela série que fez muito sucesso na TV brasileira e que popularizou o rosto do Johnny Depp, embora aparte uma ou outra citação, o filme não contém nada que relacione ele em termos de estilo a série, eles simplesmente trabalham na mesma DP que Depp e o MITO Richard Grieco. Sobre o segundo, há uma história clássica que não contarei eu porque quem tem que contar é o Peter, sobre um filme que queriamos fazer com ele protagonizando.

Não sei se esse filme foi lançado em cinema aqui, apostaria que não, embora ele tenha um apelo meio óbvio até. As distribuídoras muitas vezes deixam de lançar esses filmes por motivos que fogem a compreensão mais clara – em todo caso ele é conhecido com O Solteirão e passa na TV, e imagino que eu não precise explicar porque prefiro não chamar pelo título que ganhou. Além de ser um filme indie com cara de indie, tem o Ben Stiller e é dirigido pelo Noah Baumbach.

Eu sempre tive algum tipo de interesse pela obra do Baumbach, que além de ser conhecido pela relação com o Wes Anderson, fez um tanto de filmes indie que fizeram sucesso nessa decada, pelo quais tive algum desinteresse, e até desgosto, no caso do A Lula e a Baleia. Acho que o Baumbach faz um esforço interessante em torno desse universo que ele tenta consturir nos filmes, e curto a ideia de cronista geracional que ele têm. Mas o filme dele que gosto mesmo, e que propõe esse interesse pra além do tema geral de sua obra, é o Kicking and Screaming, que é lá dos anos 90. Sempre relacionei o Baumbach ao Whit Stillman por causa desse filme, e porque via relação bem direta nessa tentativa de tomar postura diante da juventude. Acho o Kicking and Screaming consideravelmente melhor que os filmes dele, embora não os veja desde a época, o que invalida um pouco isso.

Em todo caso, fiz essa introdução pra justificar o interesse eventual e a não compreensão pela completa ausência de opinião por esses lado sobre esse filme. É certamente o melhor filme do Baumbach desde que ele voltou a ter holofotes. Acho que se o filme se permitisse menos aqueles momentos observacionais típicos dos filmes indies, tipo a cena em que ele tenta nadar na piscina até descobrirmos que ele não sabe nadar, ele seria bem melhor. Mas acho que no geral ele constrói bem demais esse universo do personagem. E o filme se coloca um desafio com o personagem do Stiller sendo uma pessoa um tanto impossível de se apreciar.

O cara é instável, agressivo, neurótico, egoísta. Não vejo o filme fazendo concessões para torna-lo amável – acho que ele começa e termina sendo um cara difícil. A baixada de guarda no fim é algo que me parece natural.

Um dos movimentos curiosos que ele faz estruturalmente é iniciar o filme dum ponto de vista da Florence, a outra protagonista, que a partir de sua entrada passa a existir em função dele apenas. A ideia do filme é o Greenberg, que é esse sujeito maluco aí, vai passar um tempo NY na casa do irmão e aparentemente querendo não fazer nada, embora sempre fazendo muito (ele trabalha o tempo todo). Ele se envolve quase sem introdução com a Florence, que é a assistente de seu irmão, que foi passar férias fora. O que se sabe sobre ele é pouco, e vamos sabendo com o tempo, como o fato de que eles esteve hospitalizado. Seu personagem é o grande desafio, pois todo o filme gira em torno de se compreender que as crises de todos existe, e embora ele cruze e agrida um pouco essas crises, os problemas de todos são tão grandes quantos os do próprio Stiller, ainda que ele seja o único que aparente uma antisocialidade – o que o próprio filme meio que nega, já que ele se dá muito bem numa festa em que não conhece ninguém. Quer dizer, se é que dá pra chamar aquilo de se dar bem. Acho que o fascíinio do filme na construção de um personagem tão duro, arredio, é que faz as vezes os outros parecerem um pouco menos interessantes, principalmente ela, que faz a indie fofinha que se interessa pelos vulneráveis. Acho que isso mascara outras complexidades, especialmente envolvendo o Rhys Ifans, que faz um antigo amigo dele. Sua atuação é brilhante, é um cara relativamente mais simpático, mas que passa longe do comum.

O filme tem uma tendência a trabalhar imagens como se elas ilustrassem as músicas, sempre que os personagens estão só, libertos em seus ambientes e mundos, e depois tornam-se a estar confusos quando dividem a cena com outras pessoas. Embora a ansiedade de Greenberg fique evidente mesmo quando ele constrói sozinho a casa do cachorro, ali ele parece no seu universo, dono de seu tempo. Quando vai ao bar ver a Florence, o lugar é aconchegante, a música é boa, a mulher é linda, e no entanto ele parece automaticamente incomodado, e jamais aceitaria um convite para sentar na mesa dos amigos dela, onde a câmera divide com ele o momento em que ele parece contar o número de pessoas que estão ali.

Acho que o Baumbach erra um pouco no último momento com aquela ideia maluca que o personagen tem de ir pra Australia. Sei que é uma forma de mostra-lo ainda instável, mas ela é meio sem sentido, boba mesmo, e cena dele relembrando que a Florence está no hospital é muito ruim. Ali, ele simplesmente não encontrou imagem que pudesse se aproximar da memória de forma menos tosca. Acho que é um momento em que o filme se perde legal, ainda que eu goste da cena bonitnha que vem depois, com eles na casa dela.

Ele se vira bem no universo de referências, embora o Greenberg tenha sido um músico, fale de música o tempo todo, e se sinta uma pessoa bem superior em relação ao mundo, o filme consegue driblar e valorizar certas coisas sem necessariamente endossar o discurso dele – basta dizer que o cara usa Wall Street, o filme do Oliver Stone, como uma referência de como ele está se sentindo. Salvo pela sequencia da festa em que ele cheira cocaína e vai colocar Duran Duran no som, como se fosse a coisa mais preciosa – e aí, eu tenho que concordar, é mesmo. A própria relação da banda, e do surto que aparentemente ele teve na época em que receberam uma proposta de contrato e recusou, o que mudou o futro da vida dele e do Ivan (o Rhys Ifans), é bem trabalhado nas conversas, nunca exatamente sendo excessivamente o assunto do filme, mas algo que dita completamente a relação dos dois. E como disse, essas relações, e esse problema internos de cada um, são o que fazem o filme. O diálogo entre o Ivan e ele no fim da festa, em que eles enfim enfrentam essa barreira do que não se fala é fenomenal. Talvez apenas um pouco melhor que a cena em que o Greenberg o chama pra compôr novas músicas, onde há um tanto de não dito entre eles, que nem estão no mesmo ambiente, mas cujos olhares mostram como eles simplesmente estão em tons e rumos diferentes. Os dois se fuderam, no fundo, com a decisão do Greenberg, mas o fato é que o Ivan se fudeu porque um amigo quis. É interessante porque o filme toma uma postura diante da proposta que ao mesmo tempo sedutora – nos daria a chance de enfim ouvi-los – mas por outro lado claramente ciente do fato que é um convite sem noção. Outro devaneio do mundo interno dele, mas que como todas as suas ideias e comentários, o Greenberg fala bem sério. Escrevendo sobre esses eventos parece que o filme é chato, e na verdade ele tem um tempo bem particular, um ritmo natural de despejar esses instantes entre eles.



Na verdade um filme feito antes de Carrie, o Obsession ficou preso durante um tempo com a distribuidora. Essas parábolas morais do Paul Schrader sempre fizeram algum sucesso, algumas nas suas próprias mãos, outras na mão de caras brilhantes com o Brian De Palma. É claro que o filme em suas mãos ganhou tons um tanto diferentes, ainda que não menos pesados, já que o filme todo parece um imenso pesadelo vivido pelo protagonista. Tudo a sua volta parece com algo remanescente de sua memória – como se o choque com os eventos do começo do filme o fizessem viver girando em torno de si. A ideia, brutamente explicando, é de que um amigo-sócio deseja cobiçadas terras que o executivo majoritário possui e por isso ele o expõe a fritura de sua consciência. Tá, eu compliquei, mas fato é que quaisquer descrições e aventuras em tentar adentrar este filme para quem se limita a se preocupar com suas resoluções objetivas será, provavelmente, irrelevante. É curioso que retornar a ele sem qualquer elemento de surpresa torna simplesmente mais fassbinderiana o lado delirante do filme, como se ele se permitisse se perder em absoluto na sua insanidade – há, obviamente, infinitas diferenças estilísticas, mas a coisa não está assim tão distante da tragédia fassbinderiana. É interessante que entre os grandes filme do De Palma, esse me parece aquele que está menos sob o seu controle, ainda que ele opere tantas coisas que exijam um evidente controle – há algo ali que parece absolutamente fora de lugar, ou pode ser mesmo apenas um triunfo completo de suas maestria cênica.

(série de imagens tão espirais quanto deu)

O vestiário feminino se desenha em Carrie (1976), de Brian De Palma.

Amy Irving, luz especial no meio das meninas? Carrie (1976), de Brain De Palma.

As recentes notícias que o filme serie refeito – ou o livro filmado outra vez – estimularam uma revisão, depois de alguns anos, do Carrie. A última vez que eu assisti foi há cinco anos, ou seja pouco tempo, então não houve tanto choque com mudanças. Minhas impressões mudaram muito mais quando eu vi daquela vez, com olhos um pouco mais abertos. É um filme que sofre muito na mão dos mitomanos. Ou é tratado pelo público com um grande filme, ou é visto como um De Palma menor. Talvez seja até aceitável, considerando o nível da obra do De Palma, que se considere ele menos genial. Menos genial que Blow Out, por exemplo. Ou seja, quase qualquer filme é.

Mas é um filmaço. Fiquei pensando em quanto material há ali pra ser discutido. Muitos grandes momentos típicos estão lá, mas são tantos as outras singularidades. A ousadia no senso de humor, grosseiro, e pastelão. O que falar da sequência em que o Tommy e seus parceiros, que até então eram figurantes e voltam a ser depois, compram roupas? Aliás, tratamento dado a quem está em cena, algo clássico do cineasta, é foda demais. Todo mundo está em cena, tudo é palco – cada pessoa no fundo do quadro tem um sorriso irônico, uma maldade escondida.

O que dizer dos olhares dedicados as meninas, sempre com sorrisos ambiguos demais. A cena da coroação, a hora da ópera do De Palma, é perfeita, câmera acompanha o movimento da menina entregando os votos, tapa na escada, câmera vêm acompanhando o caminho de tudo até ver a Amy Irving. Ali está dado a máxima dúvida em cena, tornando ainda mais brilhante a atuação do William Katt, no limite da gentileza, da falsidade, mas duma falsidade do tipo que não sabe qual. No momento em que ela está postada ali, no caminho do sistema, somos levados a inclui-la, uma vez que a câmera continua no caminho dele até terminar no reenquadramento do alto, onde o casal se torna rei e rainha. É simples e sofisticado – votos são alterados para que o golpe se instale, os autores do crime avisados, e aviso da concretização dado, ao fim do movimento. A interrogação está ali no momento em que o rosto de Amy aparece no traçado, e desevenda nos planos seguintes, onde cada luz no rosto da Amy Irving reforça o ressignificado e a mentira, mais uma vez, como fonte maior da dramaturgia do De Palma. Mas, moralmente, seria ela menos envolvida que os outros? Embora poupada pela parábola do King, autor do livro, enquanto a Carrie não poupa mais a ninguém, diante da maldade que cega seus sentidos… Difícil dizer se ter que viver eternamente amedrontada com o fato de que ela nunca soubesse de suas intenções, o filme parece apontar para uma perdição. Ainda sobre os olhares femininos, o De Palma tem uma compreensão exatamente do que é mais incrível na Nancy Allen, aquilo que de mais vulgar, mas diria que a singularidade é que é fascinante, em todas, por isso a beleza da Sissy é tão perfeita – não é nada óbvia, e, pode ser maluquice, fica mais bonita ensanguentada. Não dá pra finalziar sem mencionar o Billy Nolan, o personagem mais genial do mundo, o mais boçal da história do cinema, por isso mesmo fascinante, ele não responde uma frase com outra coerente, o tipo de atuação genial que os preguiçoso vão taxar sempre arquétipa e canastrona.

Os lábios carnudos da Nancy Allen. Carrie (1976), de Brian De Palma.

Ainda na peregrinação pelos slashers, esse é um dos piores filmes produzidos na época de ouro do slasher. Ou, pelo menos, é propagandeado assim, de um modo geral, por quem estuda o sub gênero. Sua grande curiosidade, além da maluquice de usar o ano novo como um feriado como os outros tantos usados em filmes de horror (Halloween, dia da mentira, dia dos namorados…), é que o filme é da Cannon, ainda quando a produtora estava longe do tamanho que teve nos anos oitenta. Os fãs de filmes de ação da época (American Ninja, Braddock, Falcão) sabem bem da importancia histórica dela, que tem tudo a ver com o mesmo tipo de filme cartoonesco. Isso fora ter produzido o melhor filme – ok, podemos discutir – do Cassavetes, Love Streams.

New Year’s Evil, de Emmet Walston, é ruim a beça, mas faz algumas inovações. Apesar de todo mundo usar roupas horríveis e ser ambientado de um jeito que faz parecer que estamos num futuro imaginário e não nos anos oitenta – acho que o mundo meio que parecia mesmo isso – ele mostra o assassino. O assassino está em cena o tempo todo, de face a mostra, e não é um super assassino nem nada. Mais: ele é meio que o herói do filme, mesmo. Não num subtexto, ele é e ponto. Sua mulher, teóricamente a mocinha, é uma antiga rainha do rock, fazendo um show na TV, algo assim, que acompanha comemorando o ano nov em cada fuso americano. O herói-vilão é o marido dela, embora isso seja uma surpresa no fim, que liga para o programa dizendo que matará uma mulher para cada horário. Ele grava e coloca no ar ao vivo, ligando pra lá. O filme teria até potencial, se não fosse tão mal realizado. Tudo é estruturado pra ela ser o exemplo de péssima mãe, péssima esposa, e tal, nos moldes mais machistas que qualquer filme da época conseguiu chegar, basicamente justificando que ela acabou com a vida de toda a familia dela, sendo a péssima pessoa que era.

Quem conhece e leva minimamente a sério os filmes da época, sabe que esse tipo de subtexto era comum, e sempre nesse molde, o cara é mesmo louco, assassino, puro mal,mas ao memso tempo que seu discurso, suas razões, ou em casos mais comuns os traumas, são reais, e muitas vexes, como nesse, tratados como um motivo justo para enlouquecer.

É um filme interessante para quem estuda os slashers, ou simplesmente curte o período, já que oferece muitas tentativas, mesmo que não exatamente dê certo.

* * *
Vou colar uns trechos de histórias divertidíssimas contadas no livro Going to Pieces, provavelmente o melhor trabalho de pesquisa sobre o slasher já lançado, feito pelo Adam Rockoff. Como trabalho critico pode se encontrar em tudo que é canto coisas mais interessantes sobre os filmes, ele é bem limitado, mas como pesquisador, o trabalho é fenomenal. Não só sobre o ponto de vista dos filmes, mas diz muito sobre o mercado, a formação das produtoras independentes, e como esse mundo de Hollywood se organizou, ou organizava… A historia que vou traduzir aí é contada pelo William Lustig, fala das filmagens de Maniac, um dos seus mais notórios filmes, que trafega ali entre os slashers que podem ser bem questionados se de fato o são – o Maniac é um filme de vigilante, pra irmos no universo filme b de nomes.

Nós filmamos numa locação abaixo da ponte de Verrazano, na estrada para Brooklyn. É proíbido atirar com uma arma na cidade, é claro. [risadas] Você não pode atirar com uma arma, especialmente com a sua equipe ao redor. Mas o único jeito de conseguir o efeito com o impacto do vento e ver a cabeça explodindo, era atirando com uma arma de verdade. E a pessoa que ia atirar com a arma de verdade em sua própria cabeça era o Savini (n.e. Tom Savini era o ator da cena também). O que aconteceu foi que, logo que ele atirou com a arma, nós colocamos ela num carro, mandando um assistente correr com ela para New Jersey. Tira essa arma da cidade o mais rápido possível. E bem, nós precisavamos desse carro, pra terminar a cena. Nós precisavamos de um plano, com a garota no carro. Nós precisavámos de vários planos fechados no carro de várias coisas que não havia dado tempo de filmar. Lembrando agora, a gente colocou peru e camarão pra dar uma cara de cérebro pra cabeça, e muito sangue falso. Então, ali tinhamos um carro cheio de sangue falso, e nós não podiamos limpá-lo porque precisávamos da continuidade. E estávamos filmando no meio da noite. Então demos o carro para um cara dirigir para Staten Island, que era logo depois da ponte. E para você atravessar a ponte tem que passar pelo pedágio. E o cara estava com um carro com um buraco de bala no vidro, e muito sangue falso dentro. E ele passou pelo pedágio e pagou normalmente. Quando ele consegue sair, estavam ali seis carros de polícia avançando. E ali está ele, tentando explicar porque o carro não registrado está cheio de sangue e com um buraco no meio dele.

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